#Vida de R.U.A 16

Hoje quem nos conta uma história de esperança é o jornalista Lucas Jacinto, de Piracicaba.

Na curva da esperança

Começando os trabalhos com o SUP (Serviço de Utilidade Pública) – coletivo de mídia livre da minha cidade -, logo quando tinha acabado de descolar uma câmera legal, tive a oportunidade de conhecer como funcionava um acampamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Em Piracicaba, interior do Estado de São Paulo, o grupo está atuando de forma organizada desde 2012 e, intitulado “Acampamento Nelson Mandela”, hoje ocupa uma área pela qual o impasse judicial é estável e promissor para os acampados, mas nem sempre foi assim.

Era julho de 2014, quando recebi o convite para ir até uma “área provisória” onde parte das 60 famílias do acampamento estava alocada. Meu primeiro contato com o pessoal do acampamento foi um pouco chocante.

Eles haviam acabado de passar por uma reintegração de posse – a terceira em menos de dois anos – e tinham sido convidados para morar em uma propriedade particular de um vereador da cidade. O problema foi que, como a terra era de partilha familiar, seus parentes não aceitaram a situação e revindicaram o espaço na justiça. Eis o resultado – com menos de 24 horas para decidir para onde iriam, tiveram de se retirar da propriedade na qual passaram um período considerável, carregando o que podiam, partindo para qualquer espaço que os comportasse.

Já conhecia alguns membros do acampamento por conta de outras atividades e trabalhos jornalísticos relacionados a causa do MST em Piracicaba, mas chegando lá pude ver as famílias, a estrutura que, mesmo sendo precária, atingia o máximo possível de organização em tal situação. E ai o confronto com uma realidade que até então não era tangível para mim. Encontrei pessoas em condição de total desamparo após um duro golpe inesperado, reunidas, firmes e fortes, prontas para levantar seus barracos, capinar qualquer espaço de terra e ali permanecer, pelo tempo que fosse necessário.

Tudo teria sido mais fácil se a área onde eles estiveram não fosse um pequeno trecho de terra em uma curva de uma antiga estrada no município, que não possuía nem mesmo um acostamento. Localizado a mais de uma hora do centro da cidade rumo à zona rural de Piracicaba – onde só se avista cana-de-açúcar, o terreno onde os acampados ficaram era muito perigoso. Os militantes estavam expostos a atropelamentos, acidentes com automóveis, ataques de pessoas de má fé e assaltos. O lugar os tornava vulneráveis também a chuva e ao frio que fazia na época.

Naquele dia, conforme registrava o lugar, eu também questionava introspectivamente tudo aquilo e captava o semblante das pessoas, das crianças e adultos. Assim, eu notava a cada quadro que algo não se encaixava. Mesmo com todas as adversidades, mesmo convivendo com a pior face da incerteza que o sistema pode oferecer para a condição de vida de uma pessoa, eles sorriam, riam, as crianças caiam na gargalhada.

E nesta foto, do pai com o filho de poucos meses nos braços, acho que ocorre a tradução de tudo o que movia aquelas pessoas e que ainda move de maneira espetacular – a esperança e o anseio por dias melhores. A partir desse primeiro contato, muitas dúvidas caíram por terra, e certezas tornaram-se mais coesas.