A culpa é da corrupção ou do combate a ela?

Lula indo depor em Curitiba, 10 de Maio de 2017

Mais um episódio de "Brasília é logo ali" chega ao fim, deixando aquele gostinho de quero mais. Mais uma vez a política se torna um dos espetáculos favoritos dos brasileiros. Desde que a crise política no Brasil se acirrou temos tido a impressão de que entendemos cada vez mais do que é fazer política nesse vasto país continental, porém, a realidade é que com a tecnologia da informação e a exposição das obscuridade que é a estrutura nacional, estamos cada vez mais perdidos em um mar de dúvidas. Já dizia George Orwell, "ignorância é liberdade". Na mosca, George.

Está na hora de tentarmos fugir um pouco desta situação, começando por refletir porque líderes políticos agem como agem. É muito fácil achar que faríamos diferente ou que as decisões tomadas são malignas, mas a verdade é que isso não passa de um conforto para nossa vaidade. A política e as estruturas de poder necessitam de ações que vão a favor dos interesses daqueles necessários para mantê-la de pé. Achar que um presidente vai salvar o povo ou um juiz liberta-lo, é dos menos criativos contos de fadas. Se Lula esteve um dia na presidência do Brasil, não foi somente porque o povo elegeu. Ele chegou onde chegou porque convenceu pessoas, líderes ou pequenos grupos necessários (base necessária) para chegar e se manter no poder até hoje. O poder que Lula tem ainda hoje é indiscutível. O fato de que muitos seguidores o enxergam como uma divindade, considerando-o de certa forma o atual e legítimo presidente desde 2003, mostra a sua habilidade de persuasão. Bruce Bueno de Mesquita e Alastair Smith desenvolvem várias regras dentro da política em seu livro "O manual do Ditador", e duas delas são bem claras nesta situação.

1: O principal motor da política é o interesse próprio.

2: Nenhum líder governa sozinho. 

As análises de Mesquita e Smith são minuciosas e enquadram diversos episódios históricos e recentes. A situação brasileira não seria diferente do todo. Lula precisou usar da sua influência para recompensar apenas aqueles necessários para se manter no poder. Fez por interesse próprio e pelo interesse de seus próximos. Isso não torna Sérgio Moro um salvador. Moro conquistou seu cargo de juiz com grande esforço, mas a partir do momento que entra para o sistema, ele faz parte dele e está sujeito as mesmas regras. Se está na posição de herói é porque conseguiu convencer aqueles que o mantém assim. Nada vem de graça. Nada. O status de herói é uma aposta de uma outra base necessária, oposta a de Lula.

E quanto ao povo? E a democracia? Claro, o povo, aquele que vota e se expressa, tem uma certa voz, uma certa influência, pois é a principal fonte de riquezas daqueles que conseguem acumular, mas o que é ignorado é que essa é uma voz miúda e facilmente manipulável via ideologias. O contrário acontece com os altos níveis da política. O manual do Ditador aponta também que ideologias não afetam os líderes e suas bases com facilidade. A base para as decisões são extremamente lógicas, com eventuais decisões emocionais. 

O que parece haver em relação ao último espetáculo em Curitiba é que os líderes e suas bases estão em um equilíbrio, porém frágil, de forças e estão lutando para conseguir aquela voz miúda a mais. Existe um embate de forças, da qual nós, o povo, desconhece, e aparentemente vencerá aquele que nos convencer com suas histórias e ideologias. De um lado grandes corporações, incluindo a imprensa tradicional e alguns setores que viram uma oportunidade de enriquecimento (seja de poder ou capital), do outro boa parte da estrutura estatal, uma militância bem criada e a chamada “mídia independente”, que é ironicamente ligada a toda esse esquema. Enquanto isso vamos ver se vai colar a história de democracia e denúncias por questões irrelevantes para o país tais como um Triplex no Guarujá ou tirar milhões da pobreza, que além de questionável, é passado. O marketing virou a principal arma do conflito. Com certeza Lula agiu contra leis brasileiras. Acontece que todo e qualquer político de alto escalão vai fazer o mesmo, porém enquanto a base necessária estiver recebendo suas recompensas, cargos e influências, a vista grossa vai reinar. A partir do momento em que os ventos mudam, começam-se manobras para que outros líderes passem a prometer recompensas melhores ou mais duradouras. 

Onde ficamos então? Desistimos de um projeto democrático? Não sei. Não quero desencorajar ninguém, mas apontando o que eu vejo como verdade é um passo para possivelmente um mundo melhor. Gostaria de terminar com um trecho do depoimento do ex-presidente, que independente de moral, caímos em um sistema onde a maioria e os mais frágeis sofrerão, justiça seja feita ou não. 

Lula: O Sr. se sente responsável pela Lava Jato ter destruído a indústria da construção civil neste país? O Sr. se sente responsável por 600 milhões de pessoas que já perderam o emprego nos setores de óleo e gás da construção civil?

Moro: O que prejudicou essas empresas foi a corrupção ou o combate à corrupção?

Lula: Foi o método de combater a corrupção.

E agora? Aceitamos que a corrupção faz parte do sistema? As leis são para proteger um sistema que ela mesmo destrói? Uma coisa é certa: Lula na cadeia não vai acabar com a corrupção.