Ensaio Coletivo

Comunidade Esperança, por: Txai Costa e Mendes  

Era fim de tarde quando avistei na calçada de um prédio abandonado um grupo de pessoas sentadas conversando. Algumas crianças brincavam na rua. Olhei com mais calma e vi algumas portas improvisadas, roupas estendidas em varais espontâneos, panelas postas em mesas, para secar com o resto da luz que sobrava do dia. Algo acontecia ali.

No dia seguinte ao fazer o mesmo percurso, percebi que o movimento havia aumentado, grupos de pessoas entravam e saíam do prédio levando e trazendo coisas, madeiras, telhas, sofás. Famílias inteiras começavam a repaginar a história do antigo prédio que um dia foi o colégio Rachel de Queiroz, no bairro Cidade dos Funcionários em Fortaleza – CE.

Senti vontade de conversar com aquelas pessoas e ouvir um pouco de suas histórias. Primeiramente, procurei saber se havia alguém responsável, foi então que conheci as lideranças que, de forma acolhedora, me receberam para algumas conversas.

A história da ida de mais de 200 famílias ao antigo colégio começou através de uma reportagem que saiu na televisão relatando o estado do prédio, abandonado e em ruínas. Ao perceberem a oportunidade essas pessoas saíram do antigo lugar onde viviam, sem ter condição de pagar o aluguel, muitos desempregados, e começaram a se organizar pela luta à moradia.

Foi a necessidade que levou todas aquelas pessoas ao antigo Rachel de Queiroz. O que buscam é um lugar digno para morar. São famílias, crianças, jovens, idosos que, injustamente, são vistos como vagabundos, preguiçosos e tantas outras formas de preconceito.

 Porém, quem visitar o lugar irá ver um grupo de cidadãos e cidadãs em busca do direito à moradia justa, lutam também por respeito e compreensão. A oportunidade de provarem que eles não são tão diferentes da maioria dos moradores de Fortaleza, que querem uma vida sossegada e sustentar a família através do seu trabalho, mas pelo atual contexto em que vive o país, a realidade da classe trabalhadora se complicou e tem modificado muitas vidas.

Na manhã do primeiro dia em que fui fotografar o lugar, me ofereceram uma cadeira para esperar a liderança que chegaria, depois um café, seguido de bolacha, e mais café. Ao longo de todo o trabalho vieram sucos, biscoitos e queijo. 

A gentileza se fazia presente. E o que tinham de mais valioso também me foi oferecido, suas histórias. Sinto que o trabalho estava pronto antes d’eu chegar, pois eu não precisei vagar pelo lugar em busca de fotografias. 

Todos os dias as pessoas me guiavam até suas portas, querendo me mostrar suas vidas. Em dias de chuva até um acompanhante com guarda-chuva eu tive, sem pedir. Todos ansiavam pela oportunidade de provarem que ali vivem pessoas dignas, com vontade de viver e tecer seus sonhos.

Um dos moradores me pediu para, caso escrevesse algo sobre o lugar, o chamasse de Comunidade Esperança. Não vejo nome melhor para atribuir e explicar o que aquelas famílias, e tantas outras pelo Brasil afora, sentem e desejam.

Esperança. 

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