Depois da Avenida

Por: Rodrigo Zaim

Diferentemente do Carnaval do ano passado, onde eu era apenas mais um folião com uma câmera na mão, nesse ano eu pude dar inicio à um projeto que tinha em mente à pelo menos 2 anos. Fotografar tudo o que acontece depois que uma escola de samba passa pelos portões do Sambódromo do Anhembi. Sempre me perguntava, pra onde toda essa gente vai?

Elas voltam fantasiadas pra casa? E foi o que fiz. Os desfiles do grupo especial das escolas de Samba de São Paulo começaram na Sexta-Feira de Carnaval, não sabia se conseguiria chegar a tempo, pois tinha um compromisso indispensável.

a Gira do Terreiro de Umbanda onde frequento que geralmente é bem cheia, mas como era Carnaval muita gente não apareceu por la e por incrível que pareça a Gira acabou cedo, e logo depois estava lá tentando entrar na área de dispersão do Sambódromo.

Foi a primeira vez que vi um carro alegórico na minha frente que não tenha sido pela televisão. Incríveis, imensos, lindos. Cada detalhe minuciosamente encaixado. Quando cheguei fiquei muito impressionado com tudo aquilo, e comecei a reparar como funcionava tudo depois que uma ala, um carro alegórico passava do portão.

Tinha praticamente um exército de homens trampando para colocar cada carro no estacionamento e isso tinha que ser feito muito rápido pois logo vinha outro atrás. Eu via na expressões da rapaziada, a força que eles faziam e também a alegria dedicada, afinal estamos no carnaval, e tem coisa melhor do que você ganhar um troco e ver todas as escolas de samba passarem de "Camarote"? Acho que não.

A rapaziada que tinha desfilado com cara de êxtase, outros com aquela cara de cansaço, uns mais felizes que outros, outros já bem loucos, enfim tinha de tudo. Desde a molecada de 10 anos de idade até a eterna Baiana da escola Força Jovem com seus 87 anos.

Fui fotografar a dispersão, sexta, sábado, domingo e segunda-feira, isso mesmo até Segunda-Feira tem desfile no Sambódromo, não sabia? Pois é nem eu, mas fiquei sabendo e fui. Fotografei praticamente toda a dispersão das escolas de samba do grupo especial e do grupo de acesso, cada carro, cada fantasia, via tudo ali de pertinho um desfile particular.

Mas na verdade mais observava as pessoas do que as fotografava, ficava observando o comportamento depois da Avenida, e aos poucos fui conseguindo atingir em partes o meu objetivo. Algumas pessoas continuavam sambando, outras exaustas não viam a hora de tirar a fantasia e ir embora porque ainda iam pegar ônibus.

Foram quatro dias chegando no Anhembi as 00:30 e indo embora por volta das 5:30. Nesse pouco tempo que vivi no meio dessas escolas de samba eu pude entender um pouco, o porquê da devoção de tantos homens e mulheres, o porquê do choro quando um carro alegórico quebra, outro choro quando a escola recebe uma nota 10 de algum jurado.

Quando fui no dia da apuração dos votos na quadra da Nenê de Vila Matilde, que foi rebaixada, pude perceber o quão importante é a escola de samba para a comunidade local, com choro desesperado dos mais velhos, choro inconformado do mestre de bateria, o choro de soluçar daquela pequena passista.

O desfile que as escolas fazem não se resumem aos poucos minutos que aparecem na televisão, para qualquer comunidade dura o ano inteiro, a vida inteira. Pude perceber mais quando fui no mesmo dia da quadra da escola de samba Acadêmicos do Tatuapé, que estava abarrotada de gente já comemorando o titulo inédito em seus 64 anos de existência.

Depois da Avenida acontecem tantas coisas, envolve muita gente, muito mais do que vemos na televisão. Ver tudo isso me faz respeitar muito mais o Samba. Depois da Avenida, o Carnaval só começa.