“O desmonte da esquerda brasileira” ou “Porque Aquarius é um filme pessimista”

Alerta Spoiler!!! Se você não quer saber nada sobre o filme Aquarius sugiro que adie a leitura. 

Danilo Grimaldi, dono e impressor na Imagens de Papel, assistiu ao filme e assiste ao debate político na boca do povo, nas redes sociais e nas ruas. Decidiu desabafar. 

 

Eis Danilo:

 

Tá na boca do povo, tá no jornal, ta na porra toda: “Aquarius” botou, bota e botará pra quebrar. Não só pela coragem dos meninos em abrir os paletós em Cannes e mostrar pro mundo que um “coup” estava rolando por aqui, mas pela precisão em cada linha do roteiro, cada minuto filmado e editado.

 

Porém (“ai porém” diria Paulinho da Viola), aprendemos a ver as coisas linearmente já que nossa educação fílmica foi roubada e, a despeito dos gritos entusiasmados ao fim das sessões, o que parece ficar é uma interpretação bastante ingênua e otimista da película como um todo. Essa é a sensação que tenho tido ao conversar com conhecidos por aí.

 

Por conta disso, tomei a liberdade nada modesta de fazer um levantamento dos materiais presentes no filme à luz do nosso referente atual. Para essa tarefa, parto do pressuposto que todo objeto de cultura encontra no seu chão histórico o material social decantado e então minha hipótese é a de que o novo trabalho de Kleber Mendonça aponta o soterramento do projeto da esquerda brasileira nos últimos 40 anos.

 

Vamos nessa! O filme aponta de cara que a história correrá no seio de uma família abastada de militantes e intelectuais de esquerda. Figura central da família, tia Lúcia a matriarca homenageada em seu aniversário, tem em sua primeira fala a nota central de que algo foi esquecido: “adorei as homenagens mas vocês esqueceram de uma coisa importante: a revolução sexual”. A platéia ri mas não conecta. A senhora de cabelos grisalhos dá notícia que já na década de 80 os ganhos dos movimentos sociais dos anos 60 nos EUA e Europa já davam seu sinal de enfraquecimento, inclusive dentro da própria esquerda.

 

Imediatamente após a fala o então namorado da personagem principal (aqui ainda jovem) pede uma homenagem á uma mulher que “renasceu” naquele ano (1980) com uma cicatriz (que depois descobriremos ser a ausência do seio) mas que estava pronta pra luta. Ora, o que no Brasil nasce nos anos 80 no seio de um grupo de intelectuais de esquerda e posteriormente sabemos que já nasce ferido por se afastar da sua base, motivo final da sua existência? Sim amigos, o Partido dos Trabalhadores.

 

A proposta portanto é que a figura central interpretada por Sônia Braga seja lida como uma alegoria do PT, cuja trajetória será marcada por alianças pouco ortodoxas e esquecimentos seminais àqueles que sempre o sustentou.

Passando à segunda parte em termos cronológicos, a trama central pode ser resumida em uma protagonista já mais velha tentando toda a sorte de defesa para que o prédio, esvaziado e apodrecido (não percamos de vista nossa alegoria) não seja vendido à uma construtora que pretende DERRUBÁ-LO para construir um novo EMPREENDIMENTO mais MODERNO. Parece pouco descabido que o edifício que a personagem reside seja lido como o plano de governo do Partido dos Trabalhadores. Esvaziado dos seus moradores, luta de todas as formas para sobreviver. No entanto, a tríplice aliança de oposição, formada entre capital especulativo (no caso do filme, imobiliário), grande mídia (na figura do dono do jornal que se vende para ambos os lados) e igreja já esta formada, unida e pronta para impedir a sobrevida do edifício, e consequentemente de Clara, a qualquer custo.

 

Apesar da trama central ser linear e de fácil acompanhamento, os materiais periféricos, nem sempre de fácil apreensão, são importantes na construção da tese central de que o enfraquecimento ideológico da esquerda estava a todo vapor. Fiquemos com 2 exemplos: a protagonista é jornalista, especializada em música instrumental moderna e escreveu um livro sobre Villa Lobos. No entanto, diante de problemas pessoais amorosos, recorre ao ícone máximo da aliança cultural da ditadura como consolo, Roberto Carlos, dando ao espectador atento o sinal que precisava para a conexão. Outro exemplo claro é que a geração mais nova dessa esquerda já esta completamente cooptada pelo capital. Veja a velocidade com que os filhos de Clara apoiam em maior ou menor grau a venda do apartamento. Afinal de contas “são 2 milhões, valor muito acima do praticado pelo mercado”). A ruptura ideológica é indicada pela própria protagonista ao se referir nostalgicamente à tia Lúcia: “jogaram a forma fora”.

 

Aos trancos e barrancos chegamos ao final do enredo. Na noite anterior ao embate no escritório da construtora, Clara sonha com uma antiga empregada, negra, que supunham sem provas, roubar jóias da família. A jovem, vestida de branco, olha para protagonista e diz: a senhora está sangrando. Uma alegoria óbvia à esquerda que vai ao combate já debilitada e enfraquecida. E aqui devemos ressaltar a precisão do diretor: ela sangra justamente no seio que não existe desde o começo, ou seja, a ferida está aberta no projeto desde sua formação! Devemos nos ater um instante e notar que a base trabalhadora é representada em sua totalidade por personagens periféricos com pouca ou nenhuma importância como o salva vidas ou a empregada de Clara que, apesar do constante esquecimento, aderem sempre à figura central com apoio incondicional. Parece que o filme indica à qual ferida nos referimos a pouco.

 

Na hora do embate, acusações de ambos os lados, Clara acusa a construtora de uma sorte de desvios e crime financeiro (lembremos aqui que o irmão da personagem é também acusado de crime político) e em seguida joga os pedaços de madeira apodrecidos provenientes do edifício em cima da mesa. Apesar da força interpretativa da atriz, o close da câmera é na madeira e o filme termina mostrando o "contra ataque" já carcomido pelos insetos. Se somarmos ao resto do material descrito conseguimos demonstrar que o golpe de defesa da esquerda não tem mais força. Não como está posto. Está podre, ou melhor, foi apodrecido.

 

Aos espectadores sedentos por um final ou pela resposta “mas e aí, o prédio caiu ou não?”. A pergunta que deixo é “faz diferença?”. Se o edifício for lido como o projeto de governo de um partido enfraquecido, apodrecido, corrompido, esvaziado de suas bases mais progressistas, será que faz sentido a tentativa da manutenção desse projeto de poder? Ou devemos socorrer aqueles que ficaram por debaixo dos escombros da História e construir um novo projeto de esquerda, forte e jovem, capaz de lutar contra as forças mais conservadoras? “Aquarius” parece ter dado sua opinião.

 

Danilo Grimaldi