#23 VIDA de R.U.A: Dia mundial do refugiado

Amr: um namorado da vida

Por Isabella Lanave/R.U.A Foto Coletivo

              Para Amr Houdaifeh, existem duas coisas que um homem não pode esquecer em sua vida: o primeiro amor e a primeira prisão.
              Uma das vezes em que encontrei Amr pela rua foi numa manifestação contra o Impeachment da então presidente Dilma Rouseff, em Curitiba. A multidão seguia em direção à Boca Maldita e eu, andando contra o fluxo, avistei um homem alto, magro, de cabelos escuros – já quase grisalhos, apesar de sua pouca idade – com uma bandeira do PT nas mãos. Olhei e não reconheci de imediato. Cheguei perto e não hesitei em dizer o quão surpresa eu estava em encontrá-lo por ali. E, claro, perguntar se ele já conhecia o PT quando ainda morava na Síria. “Se eu conheço o PT? Há muito tempo. Eu escrevia muito sobre o governo PT para o meu povo.”
             Na última sexta-feira (10), dia de mobilização nacional contra o presidente interino Michel Temer, combinei de encontrar Amr novamente. Já era fim de tarde quando fui até a Santos Andrade e avistei um homem com a bandeira do PT enrolada em seu corpo.  Era ele, inconfundível, mais uma vez em seu espaço de luta.                                                                                 
              Amr está no Brasil há pouco mais de um ano. Nasceu no sul da Síria, na cidade montanhosa de As-Suwayda, em 1990. Em seu país, quando se conclui a faculdade é obrigatório o alistamento militar. Para fugir disso, Amr morou um tempo no Líbano e depois na Turquia, antes de conseguir o visto e vir para a América do Sul, como uma das únicas opções disponíveis para a obtenção de seu visto.
               Chegou a Curitiba com 63 dólares e sem saber nenhuma palavra em português. A comunicação até o hotel foi toda através de gestos. Colocando as mãos ao lado da cabeça inclinada, para mostrar que queria um lugar para dormir e levando a mão até a boca, para dizer que tinha fome, ele mostra a comunicação não-verbal que aprendeu durante os primeiros dias por aqui. A sorte foi que o conhecimento em inglês permitiu a identificação da palavra “hotel” quando chegou ao centro da cidade.
               Bahaa Houdaifeh, seu irmão mais novo, também veio para Curitiba. Chegou três dias depois de Amr. Engenheiro de formação e com um pouco de dinheiro guardado, alugou um espaço para vender comida árabe. Os irmãos trabalharam por um tempo com o restaurante, que acabou fechando. “Não somos bons para esse tipo de negócio”, brinca Amr.
               Durante a infância em sua cidade natal, Amr mexia muito com a terra. Seu pai foi um dos líderes de um grupo como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na Síria, que tirou a concentração de terras dos grandes proprietários para distribuir entre os pequenos. Mas não era fácil. “Vivíamos como um cachorro, que as vezes pode comer e outras vezes não”, conta, lembrando tempos em que a família plantava num ano inteiro para receber apenas no outro.
               Quando tinha 14 anos, sofreu a primeira vez por amor: Tharwal se casou com outro homem enquanto ainda era sua namorada. É importante lembrar que na Síria, namorar pode significar nunca beijar ou pegar a mão de uma garota. Era esse o caso de Amr, que perdeu a sua namorada para um homem com casa, comida e bens. “Foi muito triste, eu nunca vou esquecer.” Em silêncio, com os olhos brilhando, pede desculpa pelo que vai falar a seguir, “Eu nunca tinha pensado em dormir com ela. Mas nesse dia eu pensei que ela estaria dormindo com outro homem”. Apesar da tristeza, ele também consegue ver um outro lado da história: “Foi quando eu conheci meu amigo Marx”.
               O Marx a que ele se refere é quem você, leitor, está pensando: Karl Marx. Foi depois de perder a namorada para o casamento arranjado que Amr começou a questionar conceitos como o de igualdade, além de pensar maneiras diferentes para viver. Foi então que descobriu o Manifesto Comunista e tudo o que era estável e sólido se desmanchou no ar: virou comunista e fundou, junto com mais um amigo, o Partido Comunista Sírio. O partido ainda existe e é com muito orgulho que Amr fala dele. “Sabe o que é ter hoje 400 comunistas numa cidade pequena? Uma coisa de louco!”
               Na faculdade estudou Direito e fez o curso de Jornalismo escondido de seu pai, que queria que o filho estudasse apenas direito. Para pagar os estudos de jornalista, trabalhou muito na rua, como um “trabalhador normal”, como ele mesmo define: vendendo frutas ou o que fosse preciso. Não demorou para, junto de mais um amigo, criar o jornal “Sons do Povo”, em 2008.
               Na ditadura em que se encontra o país, fazer qualquer tipo de comunicação é motivo para ser preso. Amr já foi preso 21 vezes pela polícia política, como é conhecida a polícia do Estado. A primeira delas foi maravilhosa, como ele próprio define, relembrando ídolos comunistas que também passaram por prisões. “Não restou nada do meu corpo, mas minha alma saiu muito mais forte.” Já a última, foi um dos fatores que o fez sair do país. Entretanto, ainda diz ter sido muito melhor que essas prisões tenham partido do governo do que de grupos de oposição, como o Estado Islâmico (EI). “Lá não tem conversa, eles cortam cabeças mesmo.”
                  A guerra na Síria já matou mais de 250 mil pessoas desde 2011, além da migração forçada de cerca de cinco milhões de sírios, que se veem obrigados a saírem de suas casas para não morrerem. Foi em 2013, na fronteira entre a Turquia e a Síria que Amr teve certeza que seria morto pelo EI. Pausadamente, com os olhos brilhando mais uma vez, ele diz ter visto cabeças serem cortadas. “E eu tinha que falar ‘Allahhu akbar’(Uma espécie de Deus é Maior, utilizado como grito de guerra pelo Estado Islâmico)”. Pausa durante a sua fala. Confessa não saber como ainda está vivo. “Talvez porque disse ser como eles.” Fico curiosa em saber como era esse lugar. “Conhece morrer? Algo que te leve a pensar em morrer?”
               Das vezes em que pensou que morreria, confessa tentar estar feliz. “Eu amo a vida e porque eu amo ela, quero sair dela sorrindo!” É com esse mesmo ânimo que Amr fala de seu país, a sua “homeland”. “É meu país, destruído ou não é meu país. E quem tá pagando o valor da guerra é o povo”.
               No Brasil, reconhece o contexto político atual como um retrocesso. “Se o momento está ruim para os brasileiros, imagina para os refugiados.” Apesar disso, Amr encontrou um caminho para oportunidades. Num debate sobre políticas migratórias, realizado na ocupação do movimento Cultura Resiste na sede do Instituto do Patrimônio Histórico Artístico e Cultural (IPHAN) de Curitiba, pega o microfone, pede desculpas pela dificuldade com a língua e se apresenta: “Sou Amr, jornalista e advogado”. Conta brevemente sobre sua vida e volta a sentar ao meu lado.
               O debate segue com opiniões diversas sobre o tema e Amr lembra que não falou sobre o seu mestrado. Volta para o microfone, “Quando alguém acha um sentido novo em sua vida, encontra nova esperança. Eu acredito muito mais agora que o Brasil é um país para todos”.
               Conheci Amr através de um pedido no Facebook para auxilia-lo na validação de seu diploma na Universidade Federal do Paraná (UFPR). “Você precisa nos trazer o seu histórico escolar”, diz a moça responsável pelos tramites, quando chegamos à Federal. “Como meu país está em guerra, minha escola foi destruída e não tenho como conseguir esse documento”, responde Amr, que hoje já possui a validação necessária e está prestes a tentar mestrado na área de Direito Internacional da universidade.
               “Você não vai conseguir esse ano se não tiver um bom projeto”, diz Jamil Zugueib, psicólogo social, árabe, professor da UFPR e amigo de Amr, num encontro espontâneo entre ele e nós, na Rua XV. Como se tivesse com todas as palavras na ponta da língua, olha para mim e pergunta “E você, quem é? Tá acompanhando ele?”, respondo que eu e Amr nos conhecemos desde o ano passado e ele, sem me dar muita atenção, volta a palavra ao amigo. Repete fatidicamente, a importância do estudo dos autores para que Amr consiga montar o seu projeto de mestrado.
                A possível entrada no mestrado reascendeu novas perspectivas nos irmãos sírios, que hoje, além de Amr e Faiz, vivem com Faiz Houdaifeh, o último irmão a chegar, há cerca de dois meses. O mais novo, Bahaa, está fazendo curso de cabeleireiro e Faiz, o mais velho, trabalha com o irmão do meio na venda de pãos sírios. O cômico é de onde os sírios aprenderam a fazer os pães: no youtube!
                Todas as vezes em que me encontrei com Amr tive uma nova descoberta. Um pouco desse sentimento foi o que motivou o fotógrafo Diogo Sabóia a acompanhar por alguns meses a rotina dos irmãos. Para ele, foi muito importante poder mostrar a vida de um refugiado como um trabalhador comum. “Meu objetivo era poder retratar essa nova realidade na vida deles, a adaptação e o cotidiano no país de refúgio, nesse caso, o Brasil.” Hoje, Diogo diz que ganhou um “novo irmão sírio”.
               E me atrevo a querer dizer o mesmo. No nosso último encontro, antes de descer do carro, quem fez as perguntas foi Amr:

– Como você se vê no futuro, daqui 15 anos?

– Me vejo trabalhando com fotografia, contando histórias que eu acredito que precisem ser contadas.

–  Não sobre seu trabalho, sobre sua vida pessoal.

–  Mas meu trabalho faz parte dessa minha vida pessoal.

–  Não.

–  Acho que então não sei. Me explica o que você quer dizer!

–  Você não vai entender agora. (...) Mas, todo jornalista precisa ter um goal. E ir atrás dele, sem desistir. Porque se o trem começar a passar, ele não vai parar.

–  Você tem o seu? Qual é o seu?

–  Eu tenho, sim. Mas eu não vou te dizer, se não, você vai escrever aí e eu não quero que você escreva.