ENSAIO COLETIVO

OS IRMÃOS SÍRIOS

POR: DIOGO SABÓIA

Desde a morte do menino Aylar Kurdi em 2015, a questão dos refugiados – a Guerra Civil da Síria e o avanço do Estado Islâmico, como um todo – ganhou forte repercussão. Mais de cinco milhões de sírios, o que equivale a 1 em cada 8 habitantes do país, sofreram uma migração forçada, uma proporção que não se via desde a Segunda Guerra Mundial. Para a maioria da população, numa guerra não há escolha, a não ser fugir. A guerra é na Síria, mas suas consequências refletem no mundo todo. Famílias inteiras têm fugido de sua pátria, de suas casas, de sua cultura e de sua vida. Uns querem começar do zero; outros se agarram a todas as esperanças para que a guerra passe e possam regressar aos seus lares.

Esse projeto fotográfico retratou a vida dos irmãos sírios: Amr Houdaifeh (25), Bahaa Houdaifeh (21) e Faiz Houdaifeh (38), no seu processo de instalação em seu novo país de refúgio, o Brasil, e a nova realidade deles como refugiados.

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Os três moravam em uma cidade montanhosa chamada As-Suwayda, no sul da Síria. Lá eles tinham empregos de acordo com suas formações, amigos e família; além disso, Amr e Bahaa possuíam uma vida política ativa através do Partido Comunista Sírio. Os conflitos armados ainda não chegaram em As-Suwayda, mas os efeitos da guerra sim. Os pais de Amr, Bahaa, Faiz e outros 4 irmãos, se sustentavam vendendo maças e uvas de sua própria plantação, mercado que foi impossibilitado devido a guerra. Amr e Bahaa lutaram por alguns meses nos campos de batalha e para fugir do alistamento militar obrigatório, a migração foi necessária. Amr, o qual não fala muito bem o português, afirmou "I won't fight a war that isn't mine".

Contudo, existia uma saída, uma forma de ser "liberado” do alistamento: o pagamento de dez mil dólares para o governo. Com a perspectiva de juntar essa quantia o quanto antes e voltar para Síria, eles inicialmente foram para o Líbano, país que possui uma identidade cultural semelhante e onde poderiam exercer suas profissões, contudo, após um ano, a permanência deles não foi renovada e o único país que aparecia de portas abertas era o Brasil. O Brasil não possui nenhum programa específico para refugiados, mas não impõe barreiras para sua recepção, sendo o país que mais recebeu refugiados sírios na América Latina, constituindo eles a maior comunidade do país.

Ao chegarem, na cidade de Curitiba, uma das grandes dificuldades foi a adaptação à cultura, sendo o idioma um impedimento social. Com a intenção de não iniciar uma vida nova, e sim conseguir dinheiro para se sustentar nesse novo país, contribuir com a família na Síria e juntar o pagamento para liberação do exército, o fato do Brasil estar em crise econômica não facilitou a adaptação. A comunicação com o antigo país é constante. Através da internet eles conseguem notícias da guerra e contato com os mais próximos. Amr sofre por estar longe de sua noiva, com quem só passou junto um dos quatro anos de relacionamento, em decorrência da guerra, por seu isolamento político e pela distância de seus camaradas do partido.

Sendo o dinheiro a grande necessidade, a urgência de conseguir um trabalho era grande. Como não podiam exercer suas profissões, a saída foi apelar para o cultural, aprenderam então a preparar pães sírios para venda, através de aulas no youtube (e alguns segredos familiares). Por um tempo, essa saída foi o sustento dos irmãos, mas ainda era insuficiente. De tal maneira que uma dupla jornada de trabalho foi necessária. Amr, longe de sua área de trabalho, prestou alguns serviços na construção civil e atualmente trabalha numa marmoraria, muitas vezes totalizando uma jornada de trabalho de até 16 horas diárias.

Este projeto acompanhou durante meses o cotidiano, o trabalho, a vida e a angústia destes refugiados, descrita por Amr sobre a ausência de casa: “I’m losing Maram - she’s not just my girlfriend, she’s my life -, I’m losing my Family and...I’m losing myself”.