Ensaio Coletivo

Por: Luiza Mandetta

Quando chegamos na aldeia já era noite. A casa de reza era grande, e parecia maior ainda no escuro. Lá de fora dava pra escutar os instrumentos, e ver os feixes de luz escapando por entre as paredes de pau-a-pique. Na porta, guardada por um xondaro, era preciso pedir licença, e depois de receber permissão é que podíamos entrar.

Assim que entramos ficou um pouco difícil de respirar. A fumaça da fogueira se misturava com a do petyngua, espalhando um cheiro forte de fumo de corda queimado no ar. Esse aroma, eu aprenderia depois, é companhia dos guarani onde quer que eles estejam, e viria a tornar-se um dos cheiros mais acolhedores pra mim.

Lá na frente os homens tocavam seus instrumentos, mbaraka, mbaraka mirim e rave. Algumas mulheres, aglutinadas em torno da fogueira no fundo da casa de rezas, cuidavam de abastecer os petyngua e as cuias de erva mate, que distribuíam para todos. Em volta delas havia estendidos uns tantos cobertores, sobre os quais descansavam algumas mulheres e muitas crianças pequenas. O clima era de paz e aconchego, e ali nós fomos instalados também

Não  demorou muito pra que as mulheres começassem a se levantar, organizar-se em fileiras e embalar curtos passos de dança. A música vinda lá da frente foi se tornando mais intensa e elas começaram a cantar. A sensação de ouvir pela primeira vez o canto das mulheres Mbya é indescritível. Parecia um sonho, não parecia possível que um som pudesse ser tão poderoso, entrar tão fundo na gente, nos preenchendo de luz e calor. Meus olhos marejaram, mas eu estava com muita vergonha pra me permitir chorar. Tempos depois alguém iria me dizer que, quando as mulheres cantam, a forma como elas projetam a voz é para que Nhanderu escute, ouça suas vozes e sua reza. Foi nessa noite, uns quase três anos atrás, que eu me apaixonei pela cultura Mbya Guarani.

De lá pra cá, basicamente o que eu fiz foi aprender. Aprendi a ajudar como posso na luta pela terra e pela cultura, essa que é a maior batalha dos povos indígenas do Brasil, talvez do mundo; aprendi sobre uma das culturas vivas mais antigas desse continente, sobre o quanto significa o fato de eles terem sobrevivido a 500 anos de genocídio e continuarem lutando todos os dias; aprendi a construir pontes com pessoas completamente diferentes de mim, e como isso pode ser difícil e gratificante; aprendi na luta, no asfalto e na aldeia, no chão de terra batida da casa de reza; aprendi a fazer xipa, fumar petyngua, e um pouquinho sobre plantar; aprendi sobre tempo, respeito, diálogo; aprendi sobre o que eu quero pra minha vida, uma luta que seja vida, uma vida que possa ser luta; e aprendi tudo isso com a câmera na mão, traduzindo como posso o meu aprendizado, declarando como posso o meu amor.

Porã ete aguyjevete! 

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