Vida de R.U.A 21

“Um Útero é do tamanho de um punho”

Por Sarah de Roure

Assim começa Angélica de Freitas seu poema de mesmo nome. Seu verso me diz que todas as mulheres carregamos em nós um instrumento de luta, um gérmen de resistência, a possibilidade da rebeldia. Mas, esse mesmo útero que nos serve de punho é também arena de tantas pelejas. Da industria farmacêutica ao Estado, das crenças à grande mídia, dos grupos armados à outros tantos, que  se revezam no esforço de manter sob controle nossos corpos de mulher. 

Quando nos colocamos nas ruas como mulheres subvertemos duplamente a opressão. Por um lado nos afirmarmos sujeitas de transformação ao dizer que os corpos em marcha são nosso instrumento de luta. Por outro, rejeitamos o controle que esses tantos tentam exercer sobre nós, ao construir praticas de solidariedade, autonomia e igualdade.

Vale lembrar que a história de nossas lutas coletivas de mulheres foi ( e é feita) de grupos ( e mulheres) de muitos tamanhos, cores, gerações, credos e origenes. Desde o movimento popular e de bairro, passando pelo sindicalismos onde as mulheres estiveram organizadas, movimentos de mulheres do campo, os clubes e movimentos de mães, movimentos por creche, as que foram as ruas para denunciar a violência e reivindicar o direito ao aborto, até um sem número de coletivos reunidos  em torno a temas diversos.

Aprendemos que a luta das mulheres por transformações não é algo linear, que segue progredindo de maneira uniforme até a igualdade completa. A história nos mostra que há momentos de mais liberdade e igualdade e outros de retrocessos, isso porque as dinâmicas do capitalismo e do machismo se atualizam impondo novas demandas sobre nossos corpos, nosso trabalho e vidas. Ao falar da luta e da rebeldia das mulheres é importante reapropriar essa historia sem memoria, não para mumificar o passado, mas para que a luta das de outrora estejam presentes na nossa consciência e praticas cotidianas  como parte de nossa revolta e de nossos sonhos.

“repita comigo: eu tenho um útero

Fica aqui

É do tamanho de um punho”

Se é verdade o que muitos dizem sobre o feminismo estar na ordem do dia é igualmente verdadeiro que segue sendo natural estuprar, maltratar, insultar e ofender. O último Mapa da violência contra 

1 Sarah de Roure é de Brasilia e se exilou em São Paulo há alguns anos. É militante feminista e parte da Marcha Mundial das Mulheres.

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as mulheres (2015), publicado pela FLACSO, revelou que, durante 2013, 4.762 mulheres foram assassinadas (13 por dia), e que a maioria delas eram negras. O número de assassinatos  indigna profundamente mas é preciso dizer que as mulheres queremos estar vivas para uma vida que valha a pena ser vivida, com dignidade e liberdade.  

No ano passado denunciamos o projeto de Lei do Dep. Eduardo Cunha, que restringe o acesso das mulheres a pilula do dia seguinte nos casos de violência sexual e dificultando o acesso ao aborto legal. É preciso ver essa proposta (PL da Pilula como ficou conhecido) em um contexto de profundo conservadorismo mas também onde o Mercado dá o tom do que é liberdade e igualdade. Estima-se que 7,4 milhões de mulheres no Brasil já abortaram mas o fizeram/fazem de forma clandestina por não ter garantido o direito a decidir sobre seus corpos. Ou seja, mesmo que determinado direito não esteja garantido o mercado oferece alternativas, e não é por acaso que as mulheres ricas têm acesso a praticas de aborto seguro enquanto as mais pobres são penalizadas. A denuncia da violência contra as mulheres, a luta pelo direito ao aborto e a defesa de uma sexualidade libertadora não podem estar desassociadas da ideia radical de justiça social, sob pena de se fazerem funcionais ao modelo.  A radicalidade do feminismo está exatamente na ideia de que o mundo só se transforma ao mudarmos a vida de todas as mulheres e que somente mudamos a vida das mulheres quando mudamos o mundo.  

Preparem-se porque em 2016 já começou e as mulheres continuaremos nas ruas, nas redes e nos roçados, denunciando a desigualdade e construindo um mundo onde caibam homens e mulheres livres e iguais.