Falar ou não falar, eis a questão. Um breve papo com Kinyua Kamau

Falar ou não falar sobre racismo. Uma questão que está dentro de alguns que sofrem as maiores consequências do racismo institucional. Um vídeo onde Morgan Freeman diz não acreditar em eventos ou feriados para lutar contra o racismo rodou a internet e levantou essa questão. 

Quando confrontado pela pergunta de “como vamos acabar com o racismo?”  a resposta foi simples e curta. Com aquela voz intensa de narração de um bom filme, Freeman diz:

"Pare de falar sobre isso. Eu vou parar de te chamar de homem branco e vou te pedir para parar de me chamar de homem negro”

Isso até hoje me perturba um pouco. Um problema tão importante e para combater nós devemos evitar a exposição? Fui então conversar com um jovem negro, do Quênia, um país onde 99% da população é negra, que hoje vive e estuda em Paris.

Kinyua Kamau aspira produzir documentários mundo a fora.

Kinyua Kamau aspira produzir documentários mundo a fora.

Kinyua Kamau de 22 anos é natural de Nairobi, capital do país. Veio a Paris estudar cinema e esta em em seu segundo ano. O que era para ser uma entrevista acabou virando um ótimo bate papo onde fui questionando sobre questões que não soube responder. Quando falei sobre o sistema de cotas ele me colocou em cheque.

Kinyua: É engraçado essa coisa de declarar a raça. Será que existe mesmo necessidade disso?

O que eu acho sobre essa questão de racismo é que os brancos, no geral, possuem mais oportunidades para lidar com o mundo, como ele é hoje. Nenhuma novidade, mas vejo que o mundo moderno foi construído pelo homem branco se utilizando do homem negro, excluindo a possibilidade, por muito tempo, de que os negros também fazem parte dele. Agora isso está na estrutura do sistema social que vivemos e mudar não é uma tarefa fácil.

Concordamos que não é uma tarefa fácil. Mesmo aqueles que se esforçam para mudar demoram a perceber as sutilezas do preconceito relutam em aceitar sua ignorância. Uma coisa que me fez sentir um ignorante foi achar que na Africa do Sul a proporção de negros e brancos era praticamente a mesma, quando na realidade menos de 10% é branca. Kinyua, que já visitou o país antes, levantou um ponto interessante.

Kinyua: Quando se anda em Cape Town temos a impressão de que é um país de maioria branca quando na realidade eles representarem menos de um décimo da população, mas detém ainda a maior parte da riqueza e das terras. Essa é a Africa que nos dizem que está descolonizada, livre. Os brancos nos concederam a liberdade, voce me entende? Essa palavra conceder é muito forte. É verdade, temos a liberdade de escolha, mas na prática ainda não somos livres. 

No Quênia podemos encontrar situações parecidas. Ano passado fui a uma vila chamada Kilifi, ao norte de Mombasa, para visitar um amigo meu que está trabalhando em uma plantação de Sisal para um britânico chamado Senhor Wilson. Sua família veio ao Quênia há mais de 100 anos e mesmo assim cerca de 95% das terras da região ainda pertencem ao Senhor Wilson e a vila vive em torno disso, da produção de material para cordas. Muitas vezes os trabalhadores da vila trabalham mais de 12 horas por dia, moram em uma casa minúscula, ganham mal mas mesmo assim estão de bem com a vida. O problema é que se o Senhor Wilson fosse negro, a população não aceitaria isso. O queniano negro tem essa mentalidade inconsciente de que o homem branco é superior. E isso está dentro de cada negro que nasce nesse mundo e é difícil perceber isso em si mesmo. Eu mesmo passei por isso recentemente. Estava escrevendo um roteiro para a aula outro dia. Escrevi uma história onde haviam 3 personagens, sendo o principal um negro. No roteiro eu ressaltei, “este personagem é assim, assim e é negro.” enquanto que para os outros eu não escrevi. Depois reli e percebi que para mim se não deixo claro a raça do personagem, ele deve ser branco e que se for para ser negro, eu preciso destacar tal fato. Apaguei o trecho descrevendo a raça e entreguei o roteiro, sabendo que quando eu for filmar o personagem, ele será negro.

Concordamos que os rótulos devem ser apagados, mas a carga emocional é tanta que talvez seja um próximo estágio da conscientização do que é ser humano.

Kinyua: Mas no fim sou otimista. Eu tenho a impressão de que essa mentalidade está desaparecendo nas gerações mais novas. No nível institucional não vejo grande mudança, mas a nova geração está cada vez dando menos importância para a cor da sua pele. Isso me deixa otimista. O caminho é a edução dos mais jovens e assim seguir para um mundo onde só existem humanos.