Ensaio Coletivo

ESSA TERRA TEM DONO! 

Por: Ana Rivelles

No Mato Grosso do Sul, na fronteira entre o Brasil e o Paraguai, uma tragédia vem ocorrendo: indígenas que tradicionalmente habitavam a região vêm sendo, simbólica e fisicamente, massacrados - não há outra palavra - pelas agressões de ruralistas que exploram as terras locais.  Buscando angariar doações para os Guarani-Kaiowá, que, expulsos de suas terras e pressionados pelo latifúndio e pelo agronegócio, vêm sofrendo toda sorte de privações e violências, teve início, em setembro de 2015, na cidade de Curitiba (no Estado do Paraná, no Brasil), uma Campanha de Ajuda Humanitária coordenada por Ana Rivelles (produtora e fotógrafa) e Andréia Baia Prestes (antropóloga). 

A Terra Indígena Ñande Ru Marangatu teve sua demarcação homologada em 2005 pelo então presidente do Brasil Luís Inácio Lula da Silva. Poucos meses depois, porém, o Supremo Tribunal Federal, suspendeu a conquista, atendendo a uma medida liminar requerida pelos que alegam ser donos das terras. Assim teve início uma sucessão de sofrimentos para a comunidade que hoje conta com cerca de mil indígenas. Mortes por assassinato, fome e atropelamento, já que foram despejados e confinados na beira das rodovias. Sem terras para plantar, caçar ou pescar, foram forçados a viver de doações de cestas básicas ou a se submeter a trabalhos em condições análogas a de escravidão nas fazendas e canaviais. Cansados de esperar por uma solução, os Guarani Kaiowa decidiram retomar suas terras ancestrais. Após as notícias de que ruralistas estavam (e assim continuam) impedindo a chegada de ajuda, bloqueando estradas de acesso as fazendas e, como se não bastasse, comerciantes da região estavam (e estão) sendo incentivados a não vender alimentos para pessoas com "aparência indígena", aos 14 de outubro de 2015, as coordenadoras iniciaram a entrega de donativos, em Dourados no Mato Grosso do Sul, onde essa Exposição começou a tomar forma.

Co ivi oguerecó yara” significa “Essa terra tem dono” e dá nome a exposição. Este foi o grito de guerra sempre pronunciado pelo Cacique Guairacá, que garantiu vitória em diversas batalhas, quando no início do século XVII, espanhóis tentavam escravizar os índios. Buscando reconhecimento, visibilidade e direitos para os povos indígenas, os registros fotográficos mostram a imensidão de sofrimento de duas das dezenas de comunidades Kaiowá que vivem hoje às margens das rodovias do Mato Grosso do Sul. A situação é de precariedade total, as ameaças são constantes, a violência é o cotidiano, mas eles resistem, e nada os demove. 

ESSA TERRA TEM DONO! registra as comunidades visitadas pelo olhar da fotógrafa Ana Rivelles – locais onde as dificuldades são enormes: a única fonte de água é um córrego que passa por dentro da fazenda, e, portanto, está contaminado por pesticidas. Há pouco espaço onde possam plantar, e evidentemente não há matas onde se possa caçar. Com isso, o alimento é escasso, e precisam contar com a ajuda de cestas da Funai, as quais também não são suficientes. Os Kaiowá resistem bravamente todos os dias. Através de suas rezas e canções se fortalecem. As imagens produzidas naquela breve expedição procuram mostrar a dor dessa gente, mas também sua perseverança. A força de uma presença humana que, mesmo indesejada e ameaçada, nunca será apagada, e que luta para brilhar, agora e sempre.