Quilombaque - 10 anos de Resistência

Texto: Jéssica Moreira/Quilombaque
Colaboração: R.U.A Foto Coletivo

Imagina só uma festa de comemoração de 10 anos de um projeto que fortalece e enriquece a quebrada. Pois bem foi esse domingo o aniversario de 10 anos da Comunidade Cultural Quilombaque. E não foi uma simples festa não, foi aquela típica festa de quebrada, com muita musica boa, Realidade Cruel (Rap), Nazireu Rupestre (Reggae), Ballet Afro Kottoban, Samba do Congo, Jazz na Kombi ( Chaiss Quinteto), Charlis Abraão (MPB), Esquadrão Arte Capoeira, Dandara (Contação de História), Bonga e Guetus (Graffiti) VL(Mc) e Clavinho (DJ), capoeira, gente feliz, teatro, churrasquinho consequentemente os cachorros da quebrada, crianças correndo na rua até altas horas da noite e claro, muita, mas muita alegria, curtição e amor. O R.U.A Foto Coletivo junto com o projeto Quanto Vale a Arte foi lá em Perus extremo norte de SP, para prestigiar, curtir e registrar essa festa pesada e conheça também a história de Resistência do Quilombaque.

Pensar em cultura nas periferias de São Paulo é relembrar das manobras que as juventudes das décadas de 90 e 2000 faziam para driblar a ausência de espaços culturais em suas quebradas. As garagens dos pais dessas meninas e meninos, então, se transformaram em refúgio, da criatividade pulsante que não tinha espaço para desaguar.   É nesse cenário que, em setembro de 2005, a Comunidade Quilombaque dá seus primeiros passos no bairro de Perus, extremo norte de São Paulo. A Garagem era a dos irmãos Cleber e Clébio Ferreira. Após participarem de um grupo de percussão na região central, decidiram levar o que aprenderam para a quebrada peruense.

“A ideia era fazer um grupo de percussão para trabalhar os ritmos afro-brasileiros, pois existia muito preconceito por conta dos tambores. Para a comunidade nós éramos todos macumbeiros. Fizemos o trabalho de desmitificação dos ritmos, com diversas oficinas”, explica Cleber Ferreira, co-fundador da Quilombaque. Mas, de um pequeno grupo de percussão nasceu um grande polo cultural. Os colegas que ouviam sobre a iniciativa começaram a somar com diferentes saberes. Uma vizinha, mãe de uma criança com deficiência auditiva, decidiu ensinar Libras (Língua Brasileira de Sinais). Outro grupo decidiu ensinar capoeira, enquanto outros ofereciam oficinas de teatro, marchetaria, rap e o espaço ficou pequeno demais para tantas expressões artísticas.

“Pela falta de espaços culturais no bairro a galera foi agregando ao projeto, iam vendo a batucada, aí deram início às oficinas, tudo na garagem. O CineQuilombo era uma tela de TV. Passávamos o filme, com um monte de gente em volta da TV e depois discutíamos. A garagem ficava lotada, chegávamos a ocupar a rua também”.

Janice Albuquerque, 36, hoje produtora cultural da Quilombaque, foi uma das primeiras pessoas a aderirem à ideia que se iniciava na garagem. Na época, frequentava as oficinas de marchetaria, primeiro projeto que conseguiu financiamento, R$ 3 mil reais para dar conta de todas as atividades que acontecia no espaço. 

“Quando conheci a Quilombaque eu tinha filho pequeno e havia me mudado para Perus há pouco tempo. No meu antigo lugar eu também tinha uma garagem, então encontrar a Quilombaque foi muito bom. Eu entrei em um curso de marchetaria, aí nós formamos o projeto Pinóquio, que levava o nome da Quilombaque para as feiras de artesanato que participávamos”, relembra.

Em 2007, o grupo ganhou pela primeira vez o VAI (Programa de Incentivo à Cultura na periferia de SP) com o projeto de tambores e decidiu, então, migrar para um grande galpão situado ao lado da estação de trem de Perus. Isso era uma estratégia, já que os jovens do bairro sempre se encontravam na Praça Inácio Dias, em frente à estação.

Além disso, a viela onde o galpão estava situado vinha sendo palco de tráfico de drogas e até mesmo desova de corpos e acúmulo de lixo. Em 2009, mais de cem grafiteiros foram convidados pela Quilombaque para revitalizar o beco com muita arte, o que ressignificou o espaço para a população.

Foi lá que o projeto também passou a caminhar pela educação ambiental e permacultura. “Como não havia muitos recursos no galpão, começamos a construir janelas de garrafas PET, pintura com tinta natural e iniciamos um processo de mostrar como o que é considerado lixo pode ser reutilizável”, explica Clébio.

De 2009 a 2010, o coletivo deu um salto. Foram contemplados como ponto de cultura da cidade de São Paulo, permitindo a ampliação das oficinas e atividades, que abrangiam circo, fotografia digital e foto na lata, permacultura (hortas, atividades de recuperação da margem do rio, construções sustentáveis, reciclagem de alimentos e educação ambiental), capoeira, samba-rock, tricô e crochê, produção de livros artesanais, dança e festas temáticas.

Em 2010, a Comunidade Quilombaque passou por um momento de instabilidade. A promessa da Prefeitura de São Paulo de criar um Parque Linear os obrigavam a abandonar o galpão. Mas os “quilombaquianos” não arredaram os pés, lutaram firmemente, assim como seus precursores Queixadas (ex- trabalhadores da 1ª Fábrica de Cimento do Brasil, situada em Perus) e conseguiram permanecer no espaço. Na época, os integrantes se organizaram em torno da questão, com reuniões regulares, o que os levou a debater, inclusive, o projeto de Parque Linear em todo o bairro. Criaram uma página no Facebook mobilizando toda a comunidade.

Atualmente, a Quilombaqueagrega uma série de atividades de variadas linguagens artísticas. Duas vezes por mês acontece o o Sara D’Quilo, uma parceria da Quilombaque e a Biblioteca Padre Jose de Anchieta; o Jongo do Coreto, que acontece quinzenalmente, com a proposta de aprofundar a pesquisa sobre a dança afro e também ocupar a Praça Inácio Dias.

O espaço tem sido palco de debates contra o genocídio da juventude preta nas periferias, a reapropriação da Fabrica de Cimento de Perus,  discussões sobre como oTerritório da Paisagem do Plano Diretor Estratégico (PDE) da cidade, e é parte integrante do grupo que incide por uma lei de Fomento às periferias. “O alvo somos nós, nós da quebrada somos suspeitos, a gente tenta se organizar de uma forma que organize uma estratégia que ameniza esse genocídio, que é por meio da arte e cultura”, aponta Cleber.

Nos dez anos do projeto, incontáveis histórias e grupos já passaram pelo quintal da Quilombaque. O espaço se tornou uma referência no bairro para outros coletivos, que também buscaram por editais e construíram seus movimentos artísticos independentes, fortalecendo a cena cultural do bairro que, até hoje, ainda não possui aparelhos governamentais.

Segundo José Queiroz, Articulador Cultural no bairro de Perus, nesse tempo, o compromisso é melhorar ainda mais as condições logistiscas, financeiras e institucionais para continuar servindo como espaço de aprendizagem e formação de artistas, agentes, coletivos e lideranças no bairro. “ A Comunidade Cultural Quilombaque não é um lugar, uma organização. É um convite permanente a viver uma experiência de transformação. Paulo Freire, Winnicott e tantos outros educadores, afirmam que o ser humano só aprende quando em estado de espontaneidade, portanto, em ambientes e pessoas na qual confiam”, explica.

E dessa maneira a Comunidade Cultural Quilombaque, vem resistindo por 10 anos, fazendo um trabalho extraordinário na quebrada, quem quiser conhecer mais sobre esse projeto pesado e não se arrepender e se apaixonar : Site: http://comunidadequilombaque.blogspot.com.br/ 
Facebook: https://www.facebook.com/quilombaque

COMUNIDADE CULTURAL QUILOMBAQUE. QUEBRANDO CORRENTES E PLANTANDO SEMENTES.