Ensaio Coletivo

O LADO DOCE DO AMARGO

Por: Maria Isabel Oliveira

Foi na Rua Santa Rita, em Diamantina­MG que conheci a Pensão da Daguimar, onde mundos desconexos se tornam um só. Entre o pecado e a religião, entre a dor e o amor, encontrei a presidenta do altruísmo. "Aqui todo mundo é especial!" – Grita Daguimar lá do fundo do balcão, preparando pés de galinha para o jantar. Dona de uma pensão que também funciona como bar e ponto de prostituição, isso se torna um mero detalhe perto daqueles que abriga.

Entre corredores estreitos, os pés quase tropeçam nas escadas mal iluminadas, á cada porta uma história, um sonho guardado no bolso, um sorriso no fundo do copo, o corpo inerte ao futuro, preso no eterno presente. "Sempre aparece mais um! Eles sempre me encontram." – É o que Daguimar sempre diz. Daguimar é uma senhora de 55 anos, mãe de cinco filhos, sendo uma delas autista. É relativo dizer que essa senhora tenha apenas cinco filhos. Eu diria que Daguimar é mãe de todos, todos aqueles afligidos tentando alcançar uma mão para se segurar. Ali não se fita o futuro, se contenta com o presente e se chora pelo passado, logo a jukebox começa a tocar, fazendo do passado uma roupa que não serve mais. Atrás de um balcão de bar, amparada por Nossa Senhora Aparecida, ela encara quem entra porta á dentro no fundo dos olhos, com olhar forte e destemido, ao mesmo tempo sereno e acolhedor, como quem diz: "Sempre cabe mais um”. Sob uma linha tênue entre o profano e o sagrado, a pensão da Daguimar não descendede julgamentos, preconceitos são deixados do lado de fora, como quem deixa os sapatos sujos de lama na porta de casa.

Tive como orientador neste projeto o fotógrafo e artista Eustáquio Neves, que pacientemente me acompanhava nessa missão, me direcionando as melhores coordenadas. O dia em que fomos á pensão pela primeira vez, procuramos uma mesa no canto e nos sentamos, pedindo uma cerveja. Aos poucos algumas pessoas foram se aproximando, puxando mais uma cadeira à mesa, personagens de todos os tipos, vindos de lugares distintos, ás vezes nem lembrados. Não encontrei apenas uma história, mas diversas. No início era difícil, nem todo mundo abria aporta do quarto, ou falava olhando nos olhos. O primeiro a me puxar pela mão foi o Zé Geraldo, morador da pensão há mais ou menos cinco anos: “Quer me fotografar? Vou te mostrar meu quarto!” ­ e entre corredores escuros ele ia tateando as paredes, arrastando os pés para não tropeçar. Dentro do quarto, sacolas e roupas pelo chão, uma janela queimada e algumas fotografias estendidas á mão: “São meus filhos. Um dia eu ainda vou voltar pra vê­los.” ­ Dizia enquanto as lágrimas escorriam sem timidez, sentou no velho colchão, e como se eu não estivesse ali deixou ser fotografado. Zé Geraldo veio de Belo Horizonte para se tratar numa clínica de reabilitação por causa do vício de álcool, logo desistiu do tratamento e alugou um quarto na pensão. Hoje é catador de latinhas e segundo ele, bebe mais de 20 copos de cachaça por dia. Com o olhar triste e sereno, sempre me contava sobre os shows de rock em que havia ido quando jovem, e sobre os amigos da rodoviária de BH. Com os olhos sempre marejados, Zé parece viver o presente só pra chorar pelo passado. Foi o primeiro a se aproximar e também o primeiro a vir com um abraço assim que eu colocava os pés na pensão.

A Kênia mora na pensão há mais de sete anos, é prostituta, vinda de Sete Lagoas, e desde que chegou a Diamantina, não deu certo em lugar algum. Chegou à pensão com a perna quebrada e os bolsos vazios, foi acolhida por Daguimar, sendo a única com quem Kênia conseguiu lidar: “Os dias em que ela está boa é uma beleza, é muito caprichosa! Mas têm dias que some e volta mais doida ainda.” Diz Daguimar enquanto Kênia coloca Black Sabbath pra tocar nas alturas às nove da manhã. A Kênia parece um furacão, e como uma criança rebelde não escuta ninguém, eu pedia por uma foto, ela tirava a calcinha ou me mostrava os seios. Me surpreendia um pouco a cada visita, como numa manhã, em que me presenteou com morangos e uma bola com dedicatória escrita de batom : “Presente pra você, amor!” ­ Enquanto me beijava o rosto. Comi os morangos enquanto chutava a bola pra lá e pra cá, tentando entender um pouco mais a Kênia rebolando na minha frente. Na primeira vez em que pedi para fotografá­la me perguntou se eu tinha dinheiro, como contrário, nada de foto. Mas foi só passar alguns minutos para ela estar nua sob a cama, mirando a lente com caras e bocas eternamente, eu tive que pedir para parar, e a bateria da câmera também. Era difícil ter uma conversa linear com a Kênia, quando eu achava que ia me contar algo... Pronto! Dava um grito e ia me mostrar mais alguma coisa que tinha comprado. Em um quarto fechado, roupas por todos os lados, alguns morangos e uma garrafa de Dreyer. Gargalhadas e gritos vinham do nada, sob um humor negro e ácido ela vive num mundo de dor e fantasia, sempre sendo muito divertida e performática.

Aline, o oposto da Kênia, uma moça de 20 anos, mora na pensão há alguns meses. A Aline é tímida, e você sempre a encontra sentada ao lado do balcão, com um copinho de cerveja, um cigarro torto entre os dedos e um sorriso escondido no canto da boca. Mãe de dois filhos, também se prostitui e é vítima de um namorado violento. Sentadas na sua cama, me contou que ele batia muito nela, um dia não aguentou mais e teve que denunciá­lo e sendo o braço direito da Daguimar, se contenta com a vida simples que leva ali. Sem pretensão alguma, vi em Aline uma criança perdida em meio ao caos, ao mesmo tempo condizente com tudo aquilo que a circunda. Herculano, o cearense viajante, sempre repuxando as fivelas dos cintos, cheio de dedos e palavras desconexas, não queria saber de ser fotografado, até que um dia calmamente nos convida para conhecer seu quarto. Sentou ao pé da escada, puxou o cigarro do bolso, falando que ainda não havia bebido e assim se encontrava mais calmo. Tenho que confessar que ainda sóbrio, não entendi muita coisa, mas vi ali mais uma dor, longe de casa havia passado por maus bocados na vida e como todos ali, fora acolhido por Daguimar sem perguntas ou julgamentos.

Daguimar chegou se mudou para Diamantina há mais de 30 anos, com seus filhos e a filha mais nova Zilmar, a “Preta” nas costas. A Preta é autista, têm 33 anos, não fala e vive no seu mundo de encaixes eternos de potes e garrafas. Um dia conversando com Daguimar ela disse: “Quando eu soube da condição da Preta, me enchi de tristeza por dentro, pensei: ’Oh, meu Deus! Porque com ela? ’ Até que um dia fui levá­la para a escola de crianças especiais, e o que eu vi lá era muito pior, tinha criança que nem ao menos se mexia. Foi aí que eu vi a sorte que eu tinha, e o quanto minha filha era perfeita. Ela me salvou. E tudo o que fiz e o que faço é por ela, eu vivo por ela!” Para sobreviver e criar os filhos, Daguimar vendia Sempre­vivas, colocava a Preta numa sacola de plástico, pendurava nas costas e seguia estrada á fora. Conseguiu com muita dificuldade construir um “barracão” na Rua Santa Rita, e a pensão surgiu graças a Raimundo Campos, um senhor que um dia apareceu na porta de Daguimar, pedindo asilo.

“Um dia me apareceu Raimundo Campos, um senhor fraco das ideias, não dava certo com ninguém, me pediu um lugar pra ficar, e num quartinho dos fundos, bem simples com o chão grosso e telha de amianto, ele passou a me fazer companhia. Ele saía todos os dias pra lavar roupa e ia longe por isso, os meninos da rua zombavam dele, jogavam pedras. Um dia não deixei ele ir mais, e comecei a lavar suas roupas. Cuidei dele até a morte, não tinha ninguém no enterro, só eu.” ­ Diz Daguimar. Nessa mesma época, Daguimar encontrou um grande amor e amigo, o José Antônio. José ajudou Daguimar a montar o bar, e aos poucos ela foi puxando mais um cômodo aqui, mais um corredor ali. “Ele morria de ciúmes do Raimundo, mas eu também sabia que ele era casado! Ele tinha um bigodinho muito charmoso e fazia sucesso com as mulheres! Não me importava com o fato dele ser casado, inclusive a relação dele com a mulher, Judete, melhorou muito depois que apareci. Com o tempo soube que ele batia nela quando chegava em casa bêbado, e eu disse que se ele encostasse mais um dedo na Judete, ele ia se ver comigo! Foi dito e feito! Judete se tornou uma amiga, mesmo depois da morte do José Antônio continuamos mantendo contato, têm até uns dias que ela não aparece... Preciso ligar pra Judete!” Eu vejo na Daguimar, uma pessoa que descomplica as coisas, que vive o que têm de se viver, não sofre com o amanhã, afaga o presente, e lembra o sofrimento do passado com superação e orgulho. Não aponta dedos, e não nega teto de vidro.

E em todos os pensionistas que ela abriga, vejo amor. Amor um pelo outro, respeito. Diferenças gritantes, mundos distintos, infinitas dores e saudades. Não são pessoas ruins, estão apenas perdidas e escancaram suas vontades sem temer a nada e a ninguém. Não há um meio termo, não há rodeios. Todo tipo de gente frequenta a pensão, homens de corações vazios e bolsos cheios “de início de mês”, mulheres de corpos quentes e sentimentos machucados. Não há papas na língua, e o dinheiro “da chave” é o que importa antes do final da noite. Entrei sem julgamentos, mas com frio na espinha, saí com amigos e copos vazios de cerveja.

Temos um milhão de motivos para não estarmos vivos e um para estarmos, a vontade de viver. Como grãos de areia soltos no espaço. Estamos escorrendo entre os dedos do tempo, achando que somos eternos e tudo mais pode esperar. Esquecemos de olhar um pelo outro, ter amor e respeito, ou ao menos empatia ao próximo.

“É preciso amar as pessoas como se não houvesse o amanhã, porque se você parar pra pensar,  na verdade não há”­ foi o que o Zé cantou em uma de nossas conversas e suas lágrimas escorriam junto ao refrão. Naquela hora eu também chorei, esperei um pouco pra apertar o botão da câmera, e de uma forma simples, senti amor e respeito por aquelas pessoas, que com tão pouco me ensinaram tanto.