#Vida de R.U.A 13

Depois de uma ressaquinha, aí vai mais um Vida de R.U.A. Dessa vez quem conta sobre sua experiência é o Victor Amatucci, que trabalhou junto da Cruz Vermelha.
Essa é a história:

 

Foi em 2008. Eu era um mero estagiário na Cruz Vermelha Brasileira – Filial do Estado de São Paulo (CVBSP), mas com o pomposo título de “Coordenador do Departamento de Desastres”.

Ganhava pouco, trabalhava muito, vida de estagiário.

Peruíbe havia acabado de passar por uma tragédia, quase 50% da cidade ficou submersa e cabia a mim e aos voluntários (treinados por mim) fazer a triagem das famílias que receberiam ou não os kits de higiene e limpeza.

A regra era clara, Galvão: 2 kits por família. Nem mais, nem menos.

Mas as regras não são feitas por quem está na rua. E eu me deparei com 40 pares de kits para serem distribuídos. Triagem feita, famílias dolorosamente selecionadas, chegava o dia para a distribuição.

Uma fila enorme se formou em frente ao caminhão da CVBSP, eu contei 100 pessoas. Cada uma representando uma família. Ligo para São Paulo e peço permissão para distribuir 1 kit por família, aumentando assim o número de beneficiados de 40 para 80 e deixando apenas 20% da fila desamparada.

Recebo um glorioso não como resposta. E um “se fizer será demitido” da minha chefe.

Reúno os voluntários e digo que tomei a decisão de desobedecer. Os voluntários são unânimes em dizer que me acobertam. Eu nego, explico que ou a gente fala a verdade ou o povo do ar-condicionado não vai entender nunca a complexidade da R.U.A. . Eles se preocupam, mas entendem.

Distribuímos os 80 kits. O kit número 81 seria para uma senhora idosa, que morava sozinha e que, com certeza, precisava mais do que a pessoa que ganhou o kit 80. Mas eu tentei negociar e a família não abriu mão.

Meu olho enche de lágrimas para informar à senhora que ela não receberia o kit. Sento no chão, embaixo de um Sol que nunca mais verei na vida e fecho os olhos, tentando não chorar na frente dos voluntários.

Quando abro os olhos vejo a senhora vindo em minha direção. Ela para na minha frente e me dá uma garrafa de água gelada: “você está aqui desde as 7 h. Eu vi você trabalhando. Todo mundo que está com você parou para beber água e comer. São 15h e você ainda não tomou água. Não se preocupe, eu vou ficar bem. Agora toma sua água e volta para casa feliz com o que você fez hoje. Você mudou a vida dessa gente”.

Não sei se mudei, mas ela certamente mudou a minha.