Ensaio Coletivo

Feira de São Joaquim - BA

Por Guilherme Imbassahy

"Chegamos . Desce no próximo ponto, atravessa a rua e vai na direção do cais que você chega na feira em menos de cinco minutos. Fica ligado, man, você tem cara de gringo."

Era uma manhã quente, clima típico da capital baiana e apenas uma ideia passava pela minha cabeça: conhecer a feira livre mais exótica do Brasil e se possível, sair de lá com boas fotos.

Ônibus lotado, minha sequela me castigava. Mais uma vez esqueci de carregar meu celular e não haveria google maps para me ajudar a chegar lá. Contei então com a velha astúcia, colei no trocador e ele já me deu o toque. "Man, naquela feira tem de tudo, cê vai ver de cabeça de porco a utensílio pra macumba, só fica ligado com os sacis." Sacis? Umas horas depois eu ia entender.

Assim que avistei a entrada da feira, compreendi a dimensão do que eu estava prestes a presenciar. Na minha frente passava um rapaz levando um carrinho de mão com com umas vinte galinhas espremidas em uma gaiola mínima, duas senhoras duelavam para provar quem tinha a melhor couve da Bahia enquanto um rapaz com um machucado sério no braço gritava: dez pocãs por 1 real. Pronto. É aqui.

Quando entrei, senti que algo realmente mexeu comigo. Não foi o calor, tampouco os corredores espremidos pelas barraquinhas, nem mesmo o cheiro das diversas carnes expostas, o que eu via ali era um verdadeiro caldeirão humano, que borbulhava ao som do arrocha.

Saquei minha câmera, equipei com a cinquentinha (50mm) para não chamar muita atenção e comecei os shots. Percebi que mesmo com o enorme fluxo de pessoas, eu não passava despercebido e ficou nítido que algumas pessoas se sentiam um pouco acanhadas com a minha presença. Aquele não era um local turístico e meus traços, um tanto gringos, remetiam a eles como se um forasteiro estivesse "invadindo" suas particularidades. Lembrei do que o trocador me disse e senti pela primeira vez na pele branca o preconceito que os irmãos negros sofrem diariamente.

Com o passar do tempo a tensão foi diminuindo e as fotos começaram a surgir com mais leveza. Foram quase quatro horas percorrendo aqueles corredores , minha linha de trabalho nesse ensaio seriam fotos espontâneas, e assim foi feito, mesmo com os diversos pedidos de "Ei, gringo, tira uma foto minha". Quando já estava quase me dando por satisfeito, fui chamado por um senhor que me disse, "Menino, guarda sua câmera na mochila e vai embora, já tem mais de cinco sacis ligados em você". Recebi esse conselho como um sinal, guardei meu equipamento e voltei para o hotel com algumas fotos bem loucas e muita história para contar.