#Vida de R.U.A 10

Por Sérgio Silva

Mergulhado na cidade cheia de antagonismos, lá estava eu, nadando mais uma vez em uma grande manifestação de rua após a violência que sofri na noite de 13 de Junho de 2013 quando, covardemente, fui alvejado pelo disparo de uma bala de borracha. O projétil, disparado pela tropa de choque ou de elite (como queiram os rótulos aos senhores de quepe) atingiu diretamente meu olho esquerdo e tirou cem por cento da minha capacidade de enxergar com este olho. Uma noite terrível e inesquecível para quem estava presente no centro da capital paulista. Mas o que quero contar não se desdobra exatamente sobre esta data, mas sobre uma história que trava a consequência dela sobre uma fotografia e os detalhes dos fatos que a antecederam.
Toda fotografia é carregada de paixão. Mas somente aquela que é feita com a maestria de um significado que faça razão à toda uma sociedade, ou, a pelo menos uma parte dela, possui, na minha opinião, um sentimento além do que nossos olhos podem enxergar em vida. Foi com essa carga de sentimento que minha bateria foi carregada e meu cartão de memória formatado para que eu retomasse a fotografia em um grande ato público. Deixo este relato aos companheiros, parceiros e amigos do R.U.A Foto Coletivo que tanto me inspiram continuar exercendo essa doce-amarga profissão, minha experiência vivida sobre uma determinada imagem e seu exato instante de captura.

Clique!

Era o dia 20 de Novembro de 2014. Dia Nacional da Consciência Negra e dia da morte de Zumbi dos Palmares. Como de costume nesta data, a concentração do povo negr@ no Vão Livre do Masp espalhava cor e raça entre os quatro grandes pilares que sustentam o projeto de Lina Bo Bardi, famosa arquiteta ítalo-brasileira, na Avenida Paulista em São Paulo. Dia de feriado e calor soprando por todos os lados. Dia de luta. Dia de manifestação com protesto. Peguei minha fiel companheira e saí pra rua para prestigiar, apoiar e fotografar esta importante reivindicação aos direitos daqueles que sentem na pele o racismo, preconceito e opressão. Mas que também são símbolos de muitos guerreiros de fé, feito Zumbi dos Palmares.

Clique!

O sorriso, o brilho nos olhos, as expressões de luta em cada rosto, misturavam-se ao som da bateria e das vozes microfonadas em alto-falantes, à cada clique disparado sobre essas direções. Naquela altura e diante daquele momento, o olho não fazia falta. Era o reinar absoluto sobre o ato e a magia da fotografia, guiando-me entre o meu espírito e o cheiro da pele negra. Foi assim que a passeata seguiu pela avenida e, eu, ao lado da fiel companheira máquina fotográfica caminhamos juntos neste dia de retorno e celebração.

Clique!

Entre um clique e outro, cumprimentos e abraços ao rever importantes lutadores da luta racial e, obviamente, de poder reencontrar aqueles seres errantes carregando suas mochilas e equipamentos, conhecidos popularmente como FOTÓGRAFOS. Entre tod@s, voltei a me sentir vivo. Basicamente esse era o combustível que eu precisava e o sentimento inicial que carrego da ocasião.

Clique!

Porém, igual a quase tudo na vida, nem em todo jardim nascem flores. Neste dia, apenas uma situação me tirou a concentração. Pela primeira vez desde que passei a carregar uma câmera fotográfica quase que diariamente ao meu lado, senti medo de apertar o botão do disparador. Haviam algumas viaturas policiais que faziam o acompanhamento do ato, trafegando lentamente, logo atrás do último grupo de pessoas que deixavam para trás a Avenida Paulista e iniciavam a descida pela Rua da Consolação em direção à Praça Ramos de Azevedo, no centro. Procurei algum conhecido ao meu lado e percebi que acabei ficando sozinho diante das viaturas tricolores. Elas cruzavam meu campo de visão e, parado na calçada, observei o stencil “Por que o senhor atirou em mim?”, frase dita por Douglas Rodrigues antes de ser morto por policias em uma abordagem na zona oeste da cidade daquele mesmo mesmo, grafitado na mureta a altura do umbigo. O pensamento trouxe a imagem antes do clique. Apesar de não dever nada, absolutamente nada, fiquei tenso entre agir e deixar para lá. Minhas mãos suavam (mais do que o normal) enquanto olhares intimidatórios e raivosos partiam de dentro de uma viatura em minha direção. Merda. Fodeu. Agora querem o que? Pensei nisso entre o sentimento de dúvida e a vontade de fotografar que sufocava o meu peito. Assim que a distância entre a posição que eu estava e a viatura aumentou, lembrei o que uma lente 70mm é capaz de fazer e quem eu era. O que eu tinha me proposto a fazer naquele dia e naquele local? A resposta veio à cabela e me libertou. Não restavam mais dúvidas. Sentei o dedo e a certeza absoluta que tenho é que tentei. Mas no enquadramento sinto que falhei. Esta não é exatamente a fotografia que pensei sobre este momento, mas é a que existe entre a coragem de fotografar e o pavor do medo.

Clique!

Mais sobre o fotógrafo e seu trabalho clicando AQUI.