#Vida de R.U.A 9

Relato de Kátia Carvalho

 Minha paixão pela fotografia começou na adolescência quando fotografava com uma pequena câmera com flash descartável. Nossa, faz tempo. Nem vou entrar em detalhes para não revelar a idade [rs]. Eu ia fazer 18 anos e consegui fazer a prova para o Curso de Fotografia do SENAC, no centro da cidade do Rio. Naquela época era um dos cursos mais procurados, por isso, a necessidade da avaliação. Comecei o curso (que era dividido em vários módulos e durava cerca de um ano) com uma Praktika LTL e uma lente 50mm que comprei vendendo artesanato. Claro que meus clientes eram quase todos da família. Mas não quis pedir dinheiro pra ninguém. Passava as noites com meu caderninho somando as vendas até conseguir o valor pretendido. Depois fiz eventos (festas e casamentos) na época pra levantar uma grana.
A vida me deu uma rasteira e perdi meu pai de forma brutal. E assim ela foi me levando para outros caminhos, saí e voltei para o Rio, embora a paixão pela fotografia permanecesse. Cheguei a trabalhar para um jornal comunitário, mas não tinha espaço para a fotografia. Durante a faculdade de jornalismo consegui alguns trabalhos de produção de fotografia para uma agência de publicidade e já no final do curso fiz algumas pautas para o extinto Jornal Palavra. Depois passei a colaborar com agências nacionais e internacionais e fazendo freelas como venho fazendo até hoje.
Aceitei o convite do amigo Tércio Teixeira que pediu para falar de uma foto (triste demais) que marcou muito porque resultou na morte de um profissional da imprensa.
Rio de Janeiro, 06 de fevereiro de 2014. Os protestos aqui no Rio estavam mais devagar (comparando com os de 2012 e 2013). Saí de casa sem levar máscara e nem capacete achando que aquele Protesto que foi Contra o Aumento das Passagens seria tranquilo. Conclusão: em plena Central do Brasil o bicho pegou e teve muita bomba de gás e pancadaria que começou dentro da estação de trens. Teve muita correria, muita gente assustada e passando mal com aquele gás. Muitos manifestantes se espalharam pelas próximas ao Terminal de ônibus. Não consegui chegar muito perto deles por causa do cheiro de gás e até recebi de um amigo uns jatos de leite de magnésio no rosto para amenizar o cheiro.
Quando estava voltando em direção a Avenida Presidente Vargas parei para fotografar uma senhora que estava com muito medo e segurava o braço de um policial do Choque. Tentei acalmá-la depois de fazer a foto, mas ela permaneceu ali chorando de medo. 
Então segui e no meio daquela confusão mais bombas de gás, balas de borracha, pedras etc. Já na Presidente Vargas os manifestantes começaram a gritar com os policiais pedindo para parar porque alguém estava ferido. Foi quando me aproximei e vi aquela triste cena. Um homem deitado em meio a poça de sangue perto da cabeça. Deu um aperto no coração. Continuei fotografando e disputando espaço, pois a polícia cercou o local com aqueles escudos. Dois repórteres da BBC e também socorristas tentavam ajudar. Um dos repórteres tirou a própria blusa para tentar estancar o sangue. Foi quando virei para o outro lado e percebi o crachá (sujo de sangue) do repórter cinematográfico Santiago Andrade da Band. Ele parecia não ter mais vida. Chocante. Foi a cena mais difícil que eu já tive que fotografar e me manter ali sem poder fazer algo para ajudar.
Depois que o levaram fui para uma delegacia próxima porque abrir o computador perto da Central da Brasil é fatal (é roubo na certa) e transmiti as imagens.  Nesse mesmo dia, um senhor morreu atropelado ao fugir das bombas. Embora este caso lamentavelmente não tenha repercutido na mídia. Fiquei sabendo depois pelas redes sociais.
Fui embora com um nó na garganta e consegui me segurar até o Túnel Zuzu Angel. Bom, o túnel embora não tenha praticamente nenhuma ventilação é bem iluminado. Chorei muito. Me acabei. Não foi fácil dormir naquele dia, o vinho não ajudou muito. Foram dias muito angustiantes, porque ele ficou internado no hospital em coma até finalmente partir para outro plano. Colegas marcaram um Ato simbólico em frente a Candelária. Todos deixaram seus equipamentos no chão e depois o mesmo gesto se repetiu em frente ao local do acidente, ainda com marcas de sangue. 
Acho que cada um encontra uma forma de amenizar a dor diante dessas situações. Eu procuro fazer caminhadas pelo ‘mato’ e dar uns mergulhos sempre que posso. E venho lutando para não absorver muito o sofrimento, senão a gente pira. Tarefa difícil, mas temos que aprender para continuarmos.

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