José Bonifácio, 380

Ali

Ali onde tudo começou… pra mim.
Ali onde a gana se mostrou… pra mim.
Ali onde o sorriso se apresentou… pra mim.

Ali, na José Bonifácio, perto da Rua do Ouvidor.
E não se ouvia dor…

Pra mim. Expressão chula, pós moderna.
Pra que serve a modernidade, afinal?

Ao meu lado correm os mesmos de outrora.
Só nós é que não somos os mesmos.
Nós. Os de fora.

No alto do prédio a visão de outro prédio.
Ali.
Luxo do lixo pós moderno.

Das luzes verdes, amarelas. Das TVs.
Ali. Bem ali, onde a vista alcança.

E no silêncio do sereno o sentimento.
Da dor da dura realidade, perto da Rua do Ouvidor.

Na placa de cima a Líbero. Libertos? Livres?
E quem há de ser livre sem teto?

Dormem as famílias. Outrora sorriam.
A cantoria da alegria da entrada não se ouve.
Na saída.

Ali, na José Bonifácio. Do trocadilho
infame da TV Global. É fácil pros Bonis.

É fácil pra mim. Pra nós.
Pra quem assiste é sempre fácil. Mesmo quando é difícil.

E a janela que deveria ser símbolo de liberdade.
Ali…
Ali ganha espírito de prisão.
O Sol é a família que dorme de frente. Sem medo do sereno.

E a paz do silêncio é, na verdade, luto.
Ali…

Na José Bonifácio, 380.