#Vida de R.U.A 6

Relato por Erica Dezonne

Assumir o lado Fotojornalista não foi fácil. Claro, decidir qualquer profissão para uma vida toda gera muitas inseguranças, ser fotojornalista não é diferente. Mas com o tempo que fui experimentando e aprendendo sobre o meu trabalho vivendo ele no dia a dia, concluí que somos um tipo de profissional especial. Vivemos a base de adrenalina, somos jornalistas com olhares diferentes, retratamos em imagens o que tem que ser dito com palavras. Sou jornalista formada, mas descobri na fotografia a forma de me expressar congelando momentos. Sempre trabalhei em jornais, e quotidianamente saindo para fazer pautas. Há dias mornos, quando as pautas têm apenas a função de preencher o jornal do dia seguinte. Como há dias quentes, aqueles em que vibramos e as horas passam tão rápido que não nos damos conta que chegou a hora de voltarmos para o jornal e em seguida ir para casa. Dias assim podem ser feitos com protestos, denúncias, casos policiais, retratos cotidianos ou apenas passeios com o carro do jornal em busca de pautas diferentes. Passei a amar conhecer minha cidade, Campinas (interior de São Paulo), de canto a canto, bairros afastados onde pessoas que trabalham e moram em regiões mais centrais não fazem idéia da existência deles. Passei a perceber o peso da fotografia no quesito de representar o povo, ser uma voz para quem tem pouco ou quase nada. Para eles, sair no jornal é motivo de glamour quando o assunto é bom, mas também é o meio no qual eles se sentem representados quando são injustiçados.

Em cinco anos de profissão fica difícil designar uma ou outra pauta que marcou mais do que tantas outras, pois cada dia no fotojornalismo é diferente. Vibramos justamente com isso, com a falta de rotina. Nossa agenda são as pautas que muitas vezes recebemos no dia, ao chegarmos no jornal. Temos horário para começar, mas sair nunca sabemos. Finais de semana comprometidos. Às vezes reclamamos, claro, dessa nossa rotina não rotineira, mas no fundo, a cumprimos sempre com muito prazer. Ainda mais quando, num domingo a tarde, podemos ser surpreendidos com um sorriso contagiante de uma criança, o pique extra de um idoso, o pedido de justiça por melhorias no bairro, o flagra de um beijo caloroso de um casal, um olhar esperançoso pela vida de alguém doente.

Certa vez, logo no meu primeiro ano de jornal, fui com uma repórter as pressas até um bairro chamado Jardim Telesp, em Campinas, após uma senhora nos ligar denunciando que sua filha estava passando mal e o SUS não tinha ambulâncias a disposição para atendê-la. Ao chegarmos, nos deparamos com uma cena desesperadora. A mãe, com olhos azuis repletos de lágrimas e dor nítida no coração, tinha amarrado as mãos da filha, que espumava e gritava palavras sem sentido algum durante um ataque de abstinência por crack. Naquela situação, tive que ser forte e retratar dentro do possível o melhor do que estava acontecendo, mas não deixar meu lado humano ser tomado pela frieza que aquele momento pedia que eu tivesse. Cheguei até a me questionar, tempos depois, o quão fria eu poderia ser nessa profissão, algo que se deixarmos, o fotojornalismo planta em nós. Há uma linha tênue entre retratar com frieza e humanidade fatos cruéis do dia a dia. No fim, com o retrato que fiz daquela mãe tentando acalmar a filha amarrada por ela, fui finalista de um dos prêmios mais importantes do país, o Esso, em 2011.

Meu conceito é sempre aprender e observar com quem ama o fotojornalismo, com quem tem essa adrenalina e o conhecimento de vida e profissão. Tantos os jovens quanto com os “dinossauros”, no jargão jornalístico, ensinam. Sempre há o que aprender, e o fotojornalismo é uma lição eterna a ser tomada.