#Vida de R.U.A 5

RELATO POR FELLIPE GAIO

Fellipe Gaio

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Fotografias de rua me dão paz, ao mesmo tempo em que me fazem pensar nas coisas reais. Quando comecei a fotografar, tinha muita dificuldade em entender a função do tal do ISO. Sabia apenas que era melhor eu fotografar de dia, sob a luz do sol, que aí não precisaria me preocupar tanto com ele. Por isso, comecei a mirar a câmera para o que via nas ruas.

Eu sabia que se pedisse para fotografar as pessoas, elas – sabendo que seriam retratadas – não conseguiriam ficar normais diante da lente. Isso, somado à minha vergonha de abordá-las, foi o suficiente para eu começar a “roubar” as imagens. Ainda hoje, é raro quando desenvolvo conversações com as pessoas que fotografo. Se sei onde encontrá-las, apenas apareço com a imagem impressa e dou de presente a elas.

Durante uma viagem a Londres, eu fui cobrir uma manifestação pacífica contra a dependência do petróleo. Em meio às quase 1.300 pessoas, vi um casal deitado ao lado de sua bicicleta para dois. Completamente nus, estavam revestidos de uma aura de amor. Um planeta inteiro só deles.

Havia muitos fotógrafos lá, mas ela se levantou e entregou a própria câmera para mim, pedindo para que eu fizesse um retrato deles. Fiquei muito feliz por ter sido o escolhido e perguntei se, em troca, eu poderia guardar a imagem também com o meu equipamento. Naturalmente, eles aceitaram e, de certa forma, dessa vez fui eu quem recebeu a foto de presente.

Uma outra vez, enquanto andava despretensiosamente por um parque e, de repente, ouvi um assovio. Quando olho, vejo uma senhora andando de patinete ao lado do lago, acompanhada por seu cachorro, para quem assoviou. Sobre ponte por ela passava por baixo, eu via ela pegar gravetos e atirar para que o cão buscasse. Imaginei a cena emoldurada e, antes de pensar em qualquer outra coisa, cliquei. Em seguida, gritei “Você é incrível!” e ela me devolveu um “Eu sei!” bem alto. Isso me fez rir toda vez que olho para a fotografia dela.

Fellipe Gaio

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Teve um dia em que eu estava saindo de casa apenas para tomar café com uma amiga e já voltaria para o apartamento, por isso não levava a câmera comigo. No corredor, enquanto esperava o elevador avisar que chegou, fui até uma janela por onde eu nunca via ninguém olhar. Minha curiosidade era justamente o que de tão desinteressante ela guardava.

Ironicamente, ela me mostrou uma das cenas que eu mais gosto de revisitar nas minhas fotografias. Nas escadarias da saída dos fundos de um prédio comercial, havia um casal. Ele, sentado nas escadas do andar de cima, mexia em seu celular. Ela, em pé nas escadas do andar de baixo, fumava. De algum modo, senti que todas as linhas de perspectiva me levavam a olhar para eles e eu precisava registrar aquela imagem. Corri para o apartamento novamente, numa atrapalhação insana para tentar destrancar a porta, pegar, montar e preparar o equipamento e ainda voltar a tempo de capturar a cena. Cheguei na janela e, ao ver que ainda estavam por lá, cliquei. Porém, quando tirei o olho da câmera, vi que ela já abria a porta para voltar ao prédio. Por sorte, registrei o que parece ter sido a última fração de segundo deles “juntos” antes de perder o momento.

Fellipe Gaio

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Esse foi um grande presente que a fotografia me deu. A lição de perceber que, se levo minha câmera para passear, mesmo quando não vejo o que está embaixo do meu nariz, as cenas memoráveis dessas ruas me chamam para eternizá-las.

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