#Vida de R.U.A 4

Relato por Isabella Lanave

Quando comprei minha primeira câmera um amigo me disse: “Vamos sair para fotografar na rua?”, lembro de ter pensado que não encontraria nada por lá. Na rua? Mas não está acontecendo nada, o que esse menino acha que vai fotografar?

E hoje eu vejo que foi a melhor coisa que poderíamos ter feito. Mesmo que nessas saídas o ato de fotografar não fosse o foco - pois qualquer assunto era distração - o fato de sair para caminhar, observar e conversar sobre fotografia já me ajudou muito a entender um pouco mais da dinâmica da cidade, que quanto mais a gente acha que sabe dela, mais ela muda.

Nessas andanças por aí, descobri que além das cenas incríveis que se encontra pela rua, desde os pequenos detalhes comuns do movimento de cada um,  ou uma luz que bate na hora certa, os retratos me chamavam a atenção.

O desafio de chegar perto, pedir uma foto, ou às vezes apenas dar o click, é viciante. Aquela expectativa de “aquele cara tem jeito que vai deixar ou não?” dá um intenso frio na barriga. Foi assim com o seu Osvaldo, numas das tardes pela Rua XV em Curitiba.

De longe, um senhor de não muito papo. Expressão séria, olhar fixo. Lembro muito bem que estava com um amigo fotógrafo nesse dia. Olhamos para ele, nos olhamos e já entendemos que era ele. Ele era o nosso personagem do dia. Se disso sairia uma foto, aí já é outra coisa.

Passamos duas vezes na frente do senhor dizendo um para o outro “Pede você!”, “Não, você!”, “Eu já pedi da outra vez”... E numa dessas o olhar do Osvaldo nos acompanhou e ficou fixo em nós. Não tínhamos mais escolha, fomos até ele e logo ao se aproximar, o sorriso já estampava a sua cara. Lembro-me de termos falado de diversas coisas antes de entrarmos na fotografia.

E nem foi preciso algum pedido formal, o consenso do senhor para a foto foi através de seu olhar, que, apesar de refletir suas tristezas lá no fundo, trazia uma esperança! "Até que me divirto morando na rua”, dizia ele.

No México, o senhor que acabara de comprar um jornal não negou quando uma brasileira lhe pediu uma foto.

“Como te llamas?”

“Pedro. Como se dice Pedro en Português?”

“Pedro!" :P

"Tenía que estar con una camisa y corbata para usted sacarme una foto"

José Julián Neftalí Rivera Solis, escritor, poeta e vendedor de livros no Tianguis Cultural de Guadalajara, um bazar a céu aberto com todo tipo de artesanato: roupas, mochilas, sapatos, comidas, cds, discos e bijouterias. Eu nem bem me aproximava do senhor quando o ouvia dizer "Olha, olha esse livro aqui tem um de meus poemas que fiz para a cidade de Guadalajara." Cheguei perto dos livros e já o ouvia recitando um de seus poemas e dando-me o livro para que eu pudesse acompanhar. Me mostrou até uma página de um jornal em que estava ele, com seu livro e sua história. Ao dizer que era brasileira, diferente da maioria das pessoas, não fez uma cara de "uau, Brasil!", apenas perguntou sobre o mundial e sobre o roubo, segundo ele, no jogo do México.

"Eu to triste, não faço nada o dia inteiro mesmo. Mas pode tirar uma foto."

Por onde ando fico de olho nesses personagens. Alguns rendem um bom papo. Outros, uma boa foto. E outros, nem um nem outro. Mas no fim, o que eu gosto mesmo é disso que a fotografia pode trazer pra gente: o contato com o outro.