#Vida de R.U.A 2

A foto que não fizemos

Era outubro de 2013, poucos meses depois da efervescência dos protestos que balançou o país, eu, Felipe Paiva e o Jardiel Carvalho vimos uma noticia de revolta na zona norte de SP. A notícia, que estava no site da Revista Fórum, tratava de um policial que matou um jovem dentro de uma favela no Parque Novo Mundo. A versão apurada pela mídia tradicional era de que o policial entrou sem querer na favela e foi surpreendido por um menino que tentou assalta-lo com uma faca. Achamos estranho, pois dificilmente policiais entram acidentalmente nas favelas e dificilmente assaltos acontecem dentro da favela. Imaginamos que a revolta podia aumentar e por isso decidimos dar uma investigada.

Na manha seguinte colocamos nossas câmeras na mochila, capacetes na cintura e partimos. Chegamos na região do Jacanã por volta das 10h da manha e fomos até um posto de gasolina perguntar se alguém ali sabia com quem falar pra poder entrar na favela. A frentista nos disse que pessoas importantes de dentro da favela abasteciam naquele posto. 1 hora depois, no bar em frente ao posto, o contato apareceu. Conversamos com ele e falamos que queríamos saber a verdade sobre a historia e se possível falar com a família da menino assassinado. O homem nos acompanhou até a favela e nos levou a um grupo de meninos jovens que poderia nos guiar na comunidade. Já no começo da conversa as coisas mudaram de rumo. Os menores nos disseram que havia um carro “a paisana” rodando o local por dias e que foi alguém naquele carro que havia assassinado o colega deles. A todo momento os menores ficavam de olho na rua, como se temessem que o carro voltasse.


Um menino de não mais do que 10 anos de idade que fumava um baseado veio até nós cheio de liderança. Nos levou ate a casa da família após ter pedido autorização a algum líder.
Passando por uma viela cheia de peças velhas de carros chegamos a duas mulheres. A avó e a prima estavam logo na entrada do ferro velho de onde a família tirava seu sustento. O avô do menino estava esbravejando e muito nervoso. Falava sozinho e xingava tudo e a todos. Os familiares estavam revoltados com o ocorrido e não queriam falar. Conversamos com tranquilidade e acalmamos os avós. Começaram a sair da casa vários primos e tios do garoto para desabafar a violência que vivem todos os dias e a injustiça que reina na periferia. Nesse momento já dava pra ver nos olhos dos familiares um certo alivio pelo desabafo e pensamos em fazer as imagens. No entanto, a noticia de nossa presença na comunidade já havia se espalhado. Eramos estranhos e queríamos informações. Quando pensamos que havíamos controlado a situação, eis que surge um homem magro, com tatuagens no braço. Com uma autoridade estranha, sem ser agressivo ele falou:

“Já deu né tia?”

Deu um leve tapinha nas costas do Jardiel e disse:

“Esse assunto ja deu né mano? Ja falaram demais…”

Entendemos o recado e saímos dali escoltados pelo homem misterioso. No caminho de volta era possível sentir ali que haviam vários olhares acompanhando nossa saída. Essa é a história da foto que não fizemos.