Vida de R.U.A 20

Por: Tomas Cajueiro

Quem me recebeu na comunidade Quilombola Muquem foi Aldo, simpático presidente da associação que toma conta e organiza a comunidade. Cheguei lá meio por acaso, estava no Alagoas para fazer um trabalho com comunidades ribeirinhas no baixo São Francisco. Acabei antes do previsto e decidi pegar o ônibus até União dos Palmares, famoso por pelo grito da liberdade que ali foi dado por Zumbi dos Palmares, o município em 2010 entrou no circuito da mídia nacional graças a um grande enchente. Nesse período que vivemos o triste episódio de Marina achei interessante ir dar uma olhada no como estaria, alguns anos depois, a vida de uma comunidade devastada por um catástrofe “natural”.

Senhor Aldo

Senhor Aldo

Aldo fez questão de me apresentar sua família antes que fôssemos caminhar pelas ruas da comunidade. Era um dia especial pois a comunidade estaria recebendo um caminhão de polpa de fruta que era doação de uma empresa da região. Saímos logo depois do almoço para caminhar pela comunidade pois as 15h deveríamos receber as polpas e distribui-las. Ali, sob um sol escaldante, Aldo me contou a história da famigerada tempestade quando a comunidade foi devastada por uma enchente de proporções bíblicas. Vista sem escapatória, a alternativa da comunidade foi subir em uma jaqueira e passar ali, mais de 50 pessoas, uma noite de terror. Dos galhos viam suas vidas serem levadas pelas água. Casas, plantações e todas as histórias tão intimamente ligadas aquela terra eram levadas pela natureza. Águas que voltam em forma de lágrimas nos olhos de muitas das pessoas que me contaram essa história. Pessoas aliás que trago aqui nesse ensaio e cujas histórias você pode encontrar no Retratos Brasileiros.

Já estava indo embora , cheio de dúvidas e pensamentos na cabeça. Dúvidas que nasciam de uma nostalgia que sentia-se no lugar. Crianças brincavam na rua, as casas pareceriam boas, tinham uma boa escola. Enfim, parecia ser um exemplo bem sucedido de reconstrução e modernização de uma comunidade. Mas não era isso que sentia. A atmosfera era melancólica, quase triste. Era evidente que aquela comunidade estava passando por um momento de mudanças, no qual a roça era deixada pra trás e a vida urbana, forçosamente, batia na porta das pessoas. Foi quando já estava caminhando em direção a saída que encontrei Sr. Antônio e sua família sentados em frente a casa deles .

Ao me verem, convidaram para fumar um cigarrinho de palha que tinham acabado de fazer. Não resisti e, no final, nossa conversa durou muito mais que um cigarro. Afinal, ali estavam 3 gerações de quilombolas prontos para conversar. Foi ali, conversando com Antônio e seus olhos profundos, cheios de sentimentos, que ouvi uma algo que finalmente conseguiu dar voz aquilo que até então eu fora incapaz de enxergar. Um reflexão profunda, que deveria fazer pensar a todos nós. Faço minhas suas palavras:

'Tenho muita saudade de antigamente, sabe. Antes do temporal destruir nossa vila, quando ainda morávamos na roça, as coisas eram diferentes sabe. Parece que não tinha pobreza. Nós colhia, nós tinha galinha, água. Tinha de tudo. Ai em 2010 veio a chuva e destruiu nossas casa. Destruiu nossa roça sabe, a única maneira que a gente sabia viver. Ai construíram essa vila nova, com casa e rua tudo moderna. Tem até essa internet. Mas não sei, não uso nada disso. O que me parece mesmo é que ai nasceu a pobreza, sabe ? Ninguém mais tem espaço pra plantar nada e tem que comprar comida da cidade. Mas e dinheiro moço ? Não tem trabalho, como é que vai ter dinheiro ? A vida por isso ficou muito mais difícil.'