# Vida de R.U.A 18

Sobre se sentir diferente

por Matheus Placha Chequim

Devo começar o texto dizendo que não sou militante propriamente de nenhuma causa. Perambulo por aí na condição de observador, me valendo da ignorância pré-assumida nessa época de tanta informação ao mesmo tempo, atrás de experiências e conhecimento para talvez em algum momento abraçar genuinamente um ideal. É claro que essa calma tem uma razão muito clara. Dia desses, por exemplo, respondi um questionário em forma de infográfico  dentro de uma reportagem sobre racismo, no site da Revista Galileu, e constatei que minhas características e minha trajetória de vida me colocam no topo absoluto da sociedade em uma escala de privilégios. Simplificando, eu nunca me senti discriminado.
Não que eu tenha encarado o resultado como grande novidade, pelo contrário, mas às vezes a gente internaliza a expressão “se colocar no lugar do outro” como mera figura de linguagem e perde prática no exercício que ela propõe.

Chego no Hotel Estação Express, no Centro, por volta das 15h, para cobrir a preparação das candidatas que participariam naquela noite do Miss Trans Curitiba. Junto do restante da equipe, me afunilo pelo corredor logo após a entrada do hotel, até que chegamos à mesa de credenciamento, a partir de onde acabo me desprendendo dos demais, curioso ao notar que o Miss Trans é um evento paralelo a um outro ainda maior. Na verdade, dois. O “XI Encontro Regional Sul de Travestis e Transexuais” e a “I Jornada de Redução das Vulnerabilidades às Hepatites Virais, Sífilis, Tuberculose e Dsts da população travestis e transexuais” têm uma programação de palestras e mesas de discussão que há pouco começou, como indicado no painel ao fundo da mesa do credenciamento. Apesar do tema apontar para o mesmo sentido do evento que eu vinha acompanhar inicialmente, desperto um súbito interesse nesse braço mais informativo, que acontece no mesmo hotel, no salão ao lado, para onde me dirijo.

Passo pela porta aberta e assimilo o breve constrangimento de se chegar a um evento já em andamento, onde todas as pessoas participantes já estão sentadas e acomodadas, e você tem a sensação de estar chamando atenção por intermináveis segundos até conseguir se sentar. Procuro um lugar no fundo e no canto, pra me recolocar na condição de invisível, e por ali me acomodo, tentando aos poucos ficar a par da discussão que rola na mesa lá da frente. Cerca de 15 participantes vão sendo introduzidos por Rafaelly Wiest, moça loira e alta que, acabo de descobrir, é do Transgrupo Marcela Prado, que parece ser a organização que está propondo todos estes eventos.

Os breves discursos introdutórios de cada um dos convidados da mesa, que ganham a vez de falar assim que são apresentados pela Rafaelly, se desenvolvem em um ritmo meio parecido. Iniciam-se mais contidos, com saudações os presentes, vão ganhando força quando mencionam órgãos ou entidades que representam, e ao fim incendeiam-se, quase em tom de palanque eleitoral, ao trazer episódios violentos cotidianos ou frases de afirmação do movimento trans, que logo são encobertos por gritos de apoio e aplausos acelerados que elevam a plateia à euforia instantânea. Vozes de quem certamente carrega consigo marcas de experiências semelhantes.

Como o caso absurdo, citado no microfone, de uma transexual que conseguiu ser aceita em uma universidade, mas abandonou o curso pois tinha que marcar horário com a direção para poder utilizar o banheiro.

A reação da plateia efervescente me pega quase sempre no susto, pois sou capaz de acompanhar os relatos e me sentir solidário, mas me falta o combustível das horrorosas experiências pessoais de discriminação e despertencimento a maior parte da sociedade, ainda despreparada para lidar com diferenças de identidade de gênero.

Com exceção de profissionais da saúde e gestores, as inscrições para participar deste evento eram destinadas exclusivamente para pessoas transgênero. Fato que, como acabo de me dar conta, me coloca em uma jamais experimentada condição de minoria absoluta neste salão. Ao que parece, sou um cisgênero solitário na plateia. O que não seria difícil de deduzir dado o caráter do evento. Mas ainda, identificar tal cenário me faz sentir estranho, de alguma maneira.

Neste momento me aterroriza a constatação que, do salão pra fora, a angústia não apenas muda de personagem como ganha requintes de discriminação e violência - temor que aqui dentro não me ocorre absolutamente.

Demoro pra perceber que alguém me chama na fila de trás, interrompendo o transe da minha pequena epifania.

“Você é o quê?”, me pergunta uma loira de maquiagem carregada, regata estampada e busto estufado, aparentemente curiosa pela minha presença.

“Homem cis”, respondo meio inseguro após pensar por um instante, temendo poder ter confundido o conceito desconhecido para mim até algum tempo atrás, justamente no momento em que ele é colocado à prova pela primeira vez.

“Isso eu tô vendo, meu filho”, ela diz risonha, reparando na minha combinação de roupas.

Sorrio sem entender a resposta que faltava, mas mostro meu crachá e digo que sou da imprensa e que estou cobrindo o evento.

“Um hétero”, diz ela às amigas sentadas ao lado, de bom humor como quem compreende e perdoa minha falta de traquejo.

Hétero, homem cisgênero, branco e por aí vai. Só me resta sorrir amarelo enquanto me viro novamente para o palco. Num salão de uns 100 m², no centro da cidade, me constrange assumir que talvez eu tenha me encontrado o mais próximo possível do que a expressão “se colocar no lugar do outro” me permite neste caso, cercado pelos limites da minha condição. Um passo pra frente, infelizmente, ainda é um precipício. 
Que haja terra para reduzi-lo.

Foto de Amanda Souza