Ensaio Coletivo

Bons ventos nos trazem ao mar...

Fotos: Leonardo Salomão
Texto: Daniella Schuarts

Completando 4 meses de viagem, chegamos ao mar pela primeira vez na África. Atravessamos de trem o interior da Tanzânia e chegamos à capital, Dar es Salaam (nome que significa Casa da Paz), à beira do oceano Índico. A cidade é uma grande mistura entre africanos, árabes e indianos, então, por aqui a cultura é uma coisa linda de viver, que enche os olhos o tempo todo, desde o povo, o estilo de vida, a arquitetura, belas paisagens e é claro, a comida.

A grande Dar es Salaam cresceu de um pequeno vilarejo de pescadores, a Vila de Zaramo, o que faz a pesca o centro da vida cotidiana e também a base da cultura da cidade, que é uma das mais importantes rotas marítimas do mundo, com o segundo maior porto do leste africano. Dada a importância do mar na vida das pessoas daqui, decidimos mergulhar no enorme Mercado de Peixe de Dar!

Como a pesca é feita durante a noite, o movimento assustador do mercado começa logo no raiar do dia, com muita gente chegando pra pegar o pescado mais fresco possível e alimentar o resto da cidade. Ali, o alimento é o centro dos acontecimentos: o alimento que é negócio e o alimento que é comida, tudo acontecendo ao mesmo tempo de um jeito aparentemente caótico, mas na realidade, muito tranquilo. O vendedor de peixe que negocia a venda no grito enquanto segura um café em uma mão e o chapati na outra, muitas vezes com um maço de dinheiro entre os dentes. E não deixa a peteca cair!A multidão se espalha pelas áreas do mercado com diferentes objetivos.

A área 1, que fica mais em polvorosa nas primeiras horas, é aonde se vendem os peixes pequenos e médios, além dos camarões e moluscos. A compra desses peixes fica com as mulheres, que tem suas tendas e pequenos restaurantes no centro da cidade. Elas se sentam em volta dos tabuleiros e os homens, de pé, apresentam sua mercadoria. A discussão começa pra saber quem dá o melhor preço, e quando se pensa que não existe consenso, alguém amassa uma nota de dinheiro e joga em cima do vendedor.

Negócio fechado.Os peixes gigantes, crustáceos e moluscos são vendidos aos grandes restaurantes pelos chamados ‘homens de negócio’, que ficam na área 2. É uma área mais calma, um lugar onde se pode tomar um café tranquilo enquanto se vê a movimentação de grandes peixes pra lá e pra cá, sendo pesados e negociados.

Os peixes nobres, como atuns e marlins, têm como destino os restaurantes mais requintados da cidade. Qualquer coisa que for comprada no mercado pode ser levada para a área 3, onde é feita a limpeza dos peixes. Com muita gente trabalhando, nessa área é feito literalmente o trabalho sujo, e quando terminada a primeira parte da limpeza, os trabalhadores vão até o mar para lavar o peixe antes de entregar aos clientes. Fazem tudo isso com uma prática inacreditável, sem nem olhar pro peixe e pra faca afiada que estão usando!

Depois de limpo, os frutos do mar vão para a área 4, um lugar com grandes tachos de óleo para fritura. Com a sensação de ficar ali por alguns minutos, dá pra ter uma noção de como é esse trabalho reservado aos homens. O calor e a fumaça são absurdos, além do risco de mexer com óleo quente em grandes quantidades de comida.

A escumadeira gigante coloca em média 5 kg de peixe por vez, comida que é levada pelos clientes para comer em casa ou para alguns adolescentes venderem porções no próprio mercado. Mas o lugar que todo mundo vai, com certeza, é a área 5, aonde fica a cozinha. Ali tem um grande corredor com fogões e cozinheiras pra todo lado, lugar onde se toma o tradicional desjejum: chá no estilo indiano (chai) ou café no estilo árabe (kahawa), sopa de peixe (kole kole), chapati (pão indiano fino, assado na chapa) e mkate (bolo doce de arroz com especiarias).

Mas a melhor parte do mercado, sem dúvida, são as pessoas. Quando se pensa que estão brigando, na verdade estão esfregando a mão suja de peixe no rosto do amigo, brincadeira comum que rende muitas risadas e retrata a maneira das relações no mercado. Cada um no seu jeito, no grito, na briga, na risada e no abraço. Seguimos nossa caminhada para apreciar a cultura alimentar da Tanzânia com um pé na História e outro na verdade que só o povo pode nos mostrar.

Para conhecer mais do trabalho do Leonardo e da Daniella só entra na pagina no FaceBoook ouno site do Projeto Evoé