Bem-vindo ao Othon Palace

Brasil, São Paulo, Abril de 2013

 

Este é o retrato de pessoas esquecidas, que não tinham onde morar na cidade de São Paulo, e ocuparam um antigo hotel chamado Othon Palace. Um empreendimento de luxo nas décadas de 60 e 70, chegou a abrigar a Rainha Elizabeth II, estava abandonado há mais de 3 anos e com uma dívida pública milionária.  
Com a degradação do centro da cidade, os clientes do antigo Palace passaram a se hospedar em bairros mais nobres e mais próximos aos bairros financeiros. Em consequência, o hotel fechou as portas em 2008 por conta de prejuízos financeiros, e, um ano depois, foi decretado como utilidade pública.
Em 2011 o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) ocupou o espaço, alegando que a utilidade pública já estava mais de que na hora de ser executada. O MTST é um grupo de pessoas que lutam por moradia, em especial nos centros urbanos. Apesar de São Paulo ser uma cidade muito densa, há no centro, muitos edifícios que estão abandonados por problemas fiscais ou por embargo de obras. São esses os alvos do movimento que luta pelo direito da moradia. Sem uma moradia não é possível arrumar um trabalho, sem um trabalho não é possível pagar um aluguel ou ter uma vida digna.
Movimentos organizados ocupam esses edifícios e fazem deles suas moradias, até que negociações com a prefeitura ou órgãos públicos sejam concluídas.
Apesar de o Brasil ser considerado um país que saiu da pobreza, esta ainda é muito aparente na maior parte da população. Cada ano que passa, a especulação imobiliária faz o preço dos imóveis subirem e marginaliza ainda mais as baixas classes sociais.
Movimentos de luta por moradia alegam existir em torno de 100 ocupações em toda a cidade de São Paulo, o que reflete um déficit de condições mínimas para a população da metrópole. Essas são as pessoas que lutam para conseguir viver com o mínimo na cidade mais rica do país.

Brasileiros de vários cantos do país vem a São Paulo em busca de trabalho e acabam caindo nas armadilhas da vida e não conseguem sustentar o alto custo de vida. Ao entrarem para os movimentos de ocupação, as coisas começam a se ajeitar. Alguns conseguiram empregos em serviços de lojista, crianças começaram a poder ir à escola e a insegurança do cair da noite já quase não existe.

A vida dentro da ocupação é organizada, com severas regras. Sempre que alguém sair ou entrar, deve registrar o nome, o apartamento e o horário de passagem pela portaria. Drogas, incluindo bebidas alcoólicas, são estritamente proibidas. O comércio pessoal é pouco desenvolvido e até igrejas chegaram a se estabelecer, tornando o ambiente mais familiar.

Anderson, 23, veio do Pará para tentar a vida em São Paulo. Durante minha estadia na ocupação Anderson havia conseguido um emprego nas Lojas Marisa.

Não existe água corrente no edifício, por isso os moradores criaram um sistema para levar água do poço até todos os 26 andares. 

Enquanto isso a vida la fora continua. Existem diversos movimentos por luta de moradia, cada um com sua própria forma de organização. Em 2014, com a crise política no Brasil, as ocupações dispararam e durante a noite, grupos e militantes ocupavam terrenos com suas barracas para então ter o poder de barganha e fazer o Estado cumprir suas promessas. A luta é pelo direito a moradia e a terra, garantida pela constituição, e os alvos são normalmente terrenos e prédios que devem ao poder público de alguma forma. Esse quadro gera diversos protestos e negociações que pressionam o poder público a desenvolver políticas de moradia. 

Durante a copa do mundo de 2014, o MTST ocupou um terreno em Itaquera, abandonado a 2 décadas, próximo ao estádio onde seria a abertura do mega evento. Três meses depois a Caixa Federal assinou um acordo para a compra do terreno e a construção de moradias populares. 

E de noite as ações acontecem.